quarta-feira, 5 de novembro de 2008

SIM, NÓS PODEMOS

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A MENINA E O TREM


A MENINA E O TREM

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

"A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos." [ Marcel Proust ]

Caminho em círculos

Como cachorro adestrado

Tentando pegar o próprio rabo

Meu mundo é pequeno

Mas minha imaginação rompe barreiras

Revivo a cada dia a expectativa

Como única emoção de um amanhã que desconheço

Vejo ruas, viadutos, trens

Uma escada interminável e uma viagem

Meu destino é a estação seguinte

Como minha vida, caminho tão curto e sem emoções

Nos degraus quebrados antecipo a chegada

E na composição lenta rezo pelo atraso

Tento alcançar os milharais, os lagos

Estico os braços que batem contra a vidraça

Quero uma lembrança, uma extinta fotografia

Na retina perversa do tempo que se esvai

Nas mãos só ficam gotas do úmido sereno

Assim como nos olhos só restam lembranças desbotadas

Mas em minh’alma fica o resfolegar da máquina

Em compassados estertores dominicais

É um vai-e-vem pomposo e colorido

Nas manhãs de um futuro que nem havia ainda chegado

Descem todos, final do caminho para uns

Sobem outros, início da viagem para muitos

Paro, quedo-me, esperneio, choro, sou por fim conduzida

À plataforma que se esvazia

Sou fantasma na solidão de anos

Tentando viajar mais uma vez

Sou passado, sou saudade, sou esperança

E, em dias frios e ensolarados, sou esperança...

(Às vezes, sou criança!)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

MPB


PLANOS DE FUNDO LINDOS!!!



NOSSOS MOMENTOS


Momentos são iguais àqueles em que eu te amei
Palavras são iguais àquela que eu te dediquei
Eu escrevi, na fria areia, um nome para amar
O mar chegou, tudo apagou
Palavras leva o mar...
Teu coração, praia distante, em meu perdido olhar
Teu coração, mais inconstante que a incerteza do mar
Teu castelo de carinhos eu nem pude terminar
Momentos meus que foram teus
Agora é recordar!...

SOBRE JEQUITIBÁS E EUCALIPTOS


terça-feira, 10 de junho de 2008

- ME DÁ UM DINHEIRO AÍ?



- ME DÁ UM DINHEIRO AÍ?
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

Um dia apareceu na cidade assim, sem mais nem menos, saído do nada...
Instalou-se, durante o dia, na frente de uma agência bancária onde implorava atenção e pedia um “trocado”... Retribuía as escassas moedas com um comovente sorriso desdentado e alguns passos de dança! Pobre homem, pobre louco!
O gerente se desesperou, procurou a polícia, falou com a autoridade máxima:
-Ele importuna os clientes e, cá entre nós, acho que faz parte de uma quadrilha que pretende assaltar o banco!
-Calma, Borges, calma... – O delegado, velho camarada do gerente, conhecia a personalidade alarmista do amigo e o zelo com que cuidava do banco, sacrificando as próprias horas de lazer para garantir a segurança do patrimônio que lhe fora confiado.
-Mas, Oliveira, ele é inconveniente, aproxima-se das pessoas apesar de cheirar mal e é muito, muito estranho... Volto a dizer: tenho “pra” mim que ele é espião de algum bando, está ali para passar informações...
-Escuta, Borges, vamos fazer o seguinte: eu vou investigar o sujeito... quem é, de onde veio, se tem passagem na polícia... Está bem?
-Tudo bem, confio em você!
***************************************************************************
No dia seguinte, alguns policiais levaram o mendigo à delegacia. Trêmulo de medo, o pobre entregou um saco de pano, amarrado com um cordão... Lá dentro, algumas fotos, uma certidão de nascimento e um recorte de jornal...
-Então, você se chama Jonas da Silva e nasceu nessa cidade em 25 de janeiro de 1958? – Indagou o delegado examinando-o com curiosidade.
-Sim, senhor!
O delegado fez algumas anotações, guardou os papéis no pano sujo e o devolveu ao homem, ensaiando um meio sorriso amistoso:
-O senhor está liberado, pode ir embora!
-Muito obrigado, doutor, muito obrigado!
*******************************************************************************
E o tempo passou! Sem nenhum antecedente que o incriminasse, Jonas permaneceu na entrada da agência bancária, sorrindo para quem lhe dava uma moeda e fazendo caretas para os apressados e indiferentes... As pessoas se acostumaram com ele: era tolerado por algumas e tratado amistosamente por outras. Somente seu passado era uma incógnita, mas, para a maioria, isto não fazia a menor diferença.
-Ei, amigo... Me dá um dinheiro aí? – O empresário apressado rosnou um impropério, mas o estudante risonho tirou de sua magra mesada algumas moedas.
-Obrigado, jovem, muito obrigado! Qual é o seu nome?
-Rodrigo... E o seu?
-Jonas, a seu dispor! – Respondeu o mendigo fazendo uma mesura exagerada.
-Muito prazer, Jonas, de onde você é?
O silêncio indicou que a conversa havia terminado. Rodrigo seguiu seu caminho e Jonas voltou a sorrir:
-Tia, tem um trocado “pro” almoço?
Da janela do andar superior, o gerente acompanhava a cena. Nas últimas semanas havia dedicado alguns minutos do seu tempo para observar Jonas. Percebeu que ele costumava ser cordial com as pessoas, não demonstrando impaciência ou desagrado quando elas o ignoravam ou insultavam. Além disso, jamais sentiu cheiro de bebida ou cigarro quando passava ao seu lado... Ele era um mistério, embora já não o preocupasse tanto!
Os meses seguintes transcorreram sem maiores novidades, a não ser visitas mais freqüentes do Delegado Oliveira ao banco. No início, Borges estranhou ver o amigo pagando contas, fazendo saques e tirando extratos – coisas que ele costumava fazer on line ou eram providenciadas por outra pessoa da sua confiança -, mas, com tanto trabalho e preocupações, deixou de pensar no assunto.
Em dezembro, Borges se deixou contaminar pelo espírito natalino e admitiu a si mesmo ter deixado crescer, em seu coração, uma certa simpatia por Jonas. Certa noite seguiu o mendigo de carro e ficou penalizado com o local onde ele dormia: um beco entre dois prédios, sobre papelões e trapos que estendia no meio dos latões de lixo... (“-Quando tiver tempo, pensarei em algo para ajudá-lo!”, prometeu não sabia exatamente a quem.). A verdade é que não conseguia mais imaginar a entrada do banco sem a figura folclórica de Jonas, dançando e sorrindo aquele sorriso inocente, conformado, inofensivo...
A poucos dias do Natal, Jonas desapareceu! E Borges estava às voltas com o balanço anual do banco que a Contabilidade não conseguia fechar, a escolha dos presentes, as compras para a ceia, os parentes que chegavam à sua casa... Só lembrou do mendigo no almoço natalino, admirando a mesa farta... Decidiu que no dia seguinte levaria alguns sanduíches de peru para Jonas, talvez um refrigerante... por que não um vinho? Não, não era bom iniciá-lo no álcool, ele já tinha muitos problemas, o refrigerante estava bom!
No dia seguinte, Borges jogou fora as sobras de Natal quando se convenceu de que o mendigo não apareceria... Custou a reconhecer que, mais do que frustrado, estava preocupado.
A semana foi agitada e, no último dia do ano, aguardou em vão ouvir a voz desafinada de Jonas emendando pedaços de músicas, pedindo alegremente: “-Me dá um dinheiro aí?”. O expediente no banco terminou ao meio dia e Borges se dirigiu rapidamente para casa, pois após o feriadão do final de ano tiraria dez dias de férias, na praia, gozando um merecido descanso!
Voltou na metade de janeiro e custou a entrar no ritmo novamente. Só lembrou de Jonas quando um funcionário do banco falou em voz alta: “-Olha, o louquinho voltou...”
Lá embaixo, o mendigo pedia esmolas sentado em uma pedra, com o braço estendido e a mão em concha. Não falava, não cantava, não sorria...
Borges desceu e tentou puxar conversa, saber onde andava... Mas seus olhos estavam vazios, o hálito cheirava a álcool e parecia não ouvir... Estava longe, muito longe...
********************************************************************************
Somente depois do feriado de carnaval é que a rotina foi aos poucos se instalando no banco. Mas o gerente nunca mais foi o mesmo!
Borges passou a lembrar, com freqüência, do entusiasmo de um ex-colega tomado de amores pela metrópole para onde fora transferido, tentando convencer a todos que uma cidade grande pode ser humana e calorosa: “-Basta dar um passo e você está em outro bairro... Às vezes, basta atravessar uma rua ou avenida! Está tudo interligado, só muda o nome...”
“-Basta dar um passo...”, refletiu Borges. Foi assim que passou a enxergar a sanidade de Jonas: alguma coisa no passado estava constantemente chamando-o, afastando-o da realidade, obrigando-o a dar um passo para trás, em direção às lembranças... Ele havia passado muito tempo no limiar da razão, sem ter certeza da direção a seguir. Parece que finalmente havia sucumbido a algo mais forte do que ele!
No final do seu turno, o gerente passou pelo mendigo e pensou em falar com ele, mas desistiu. Gostaria de conhecer seu passado, saber a origem da dor que carregava, no entanto, havia deixado passar a oportunidade.
Rumou para o estacionamento perguntando-se qual seria a direção certa para dar o próximo passo no dia seguinte!





quarta-feira, 9 de abril de 2008

GUARDANAPOS DE CROCHÊ

GUARDANAPOS DE CROCHÊ
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

O leitor com mais idade deve lembrar daqueles guardanapos de crochê, delicadamente trabalhados, que se usava colocar no encosto de sofás, poltronas e cadeiras. Pois bem, essa história é sobre eles e sobre os motivos de alguém que os tecia pacientemente, ponto a ponto, laçada após laçada...).
Laura era filha única e, como o pai trabalhava fora (inclusive aos sábados), costumava acompanhar a mãe sempre que a mesma precisava sair: no armazém, na quitanda, no açougue, visitar uma vizinha adoentada... Na época, lá pela metade da década de 60, Laura tinha oito anos; era esperta, curiosa e sentia prazer em sair com a mãe (principalmente porque, quase sempre, voltavam para casa com uma prenda – coisa simples, é bem verdade, mas suficiente para enfeitar sua vidinha de subúrbio).
(Deve atentar o leitor para o fato de que, na época, ainda não existiam grandes supermercados e os armazéns costumavam vender de tudo – inclusive mimos que encantavam as meninas, como pulseiras de plástico, presilhas para o cabelo, balas que vinham com um anel de pedra colorida, álbuns de figurinhas, e muitas outras coisas).
Dessas saídas, Laura só não gostava de ir todos os sábados, religiosamente, visitar uma amiga da mãe que se chamava Maria “de tal”. Almoçavam, a mãe arrumava a cozinha, trocavam de roupa e lá se iam para a casa de Dona Maria, uma mulata cinqüentona robusta, sorridente, com manchas brancas no rosto e nas mãos e casa bem ao estilo de solteirona da época: impecavelmente limpa e arrumada.
Laura sentia nojo do beijo estalado em sua bochecha, mas aceitava com prazer o que lhe era oferecido: enquanto a mãe e sua amiga conversavam e tomavam chá, não faltava à sua frente um pratinho com rosquinhas de coco (uma especialidade da dona da casa) e um copo de suco ou guaraná.
Terminado o lanche, Laura ficava sem ter o que fazer, a não ser examinar a sala que conhecia de “cor e salteado”: os retratos em preto e branco distribuídos pelas paredes e em porta-retratos sobre um balcão; a mesinha de pés torneados, forrada com plástico transparente para não ser manchada ou arranhada; o tapete florido; o sofá e a poltrona com estofamento de veludo vermelho e braços de madeira; a cadeira de balanço com assento e encosto em palhinha; a família de cisnes de porcelana alegrando um móvel baixo, semelhante a um armário de madeira escura, com duas portas fechadas à chave que atiçavam sua curiosidade... Mas o que a encantava, mesmo, eram os guardanapos de crochê que guarneciam os encostos do sofá, da poltrona e da cadeira de balanço: eram delicadas peças que, de vez em quando, mudavam de cor e de forma. E ela adorava acariciá-los, sentir sua textura, imaginar o trabalho que deveriam ter dado para serem confeccionados.
(Agora o leitor já sabe que Dona Maria, a “solteirona” com vitiligo, ocupava seu tempo limpando e arrumando a casa, mas, principalmente, usando suas mãos ágeis para tecer guardanapos de crochê que coloriam sua vida e atraiam a atenção das raras pessoas que a visitavam).
Laura cresceu, a família mudou de bairro, as visitas à Dona Maria foram ficando cada vez mais raras até que um dia deixou de acompanhar a mãe. Já era uma adolescente que podia muito bem ficar sozinha em casa e, além disso, o final do curso ginasial era “puxado”, exigindo que usasse os fins de semana para estudar e realizar trabalhos.
Só voltou à casa de Dona Maria no dia em que ela morreu. Como era costume à época, o velório foi realizado em casa, na sala que tão bem conhecia.
Já na entrada do jardim, ficou chocada com as pessoas que pisoteavam as flores tão carinhosamente plantadas e cuidadas pela amiga da mãe. Mas foi na sala que toda a sua surpresa e dor vieram à tona: copos molhados sobre a mesa e o balcão; porta-retratos amontoados em um canto, para dar lugar a um prato de salgadinhos; refrigerante derramado no tapete e – o pior – os guardanapos de crochê usados para limpar mãos e bocas, secar o nariz do bebê resfriado, atirados ao chão, pisoteados, ignorados...
Voltou sozinha para casa, com os olhos marejados, e, quando a mãe chegou, teve que agüentar uma repreensão por não se ter despedido da velha senhora como convinha, pois nem à beira do caixão havia chegado para ao menos fazer uma prece.
Porém, dentro de si Laura guardou a convicção de que havia sido uma das únicas pessoas que realmente respeitou Dona Maria Ondina da Cunha na vida e na morte; e também a única que chorou por sua casa, invadida e vandalizada por um “bando” de parentes interesseiros e estranhos curiosos.
Por fim, havia entendido a vida da estranha senhora e o valor dos seus guardanapos de crochê!
(Vale acrescentar, caro leitor, que, a partir desse dia, Laura sentiu nascer dentro de si uma grande admiração pela mãe. Vá a gente entender essas relações entre pais e filhos!).

segunda-feira, 31 de março de 2008

REFLEXÕES II


ESTAÇÃO: OUTONO


Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

Há um “quê” de malícia nessa tarde inquietante e moleca... Nem bem verão, tampouco inverno – mais para um outono sem paradigmas, irracional. Nem uma coisa, nem outra: apenas o calor do dia, que se compensa com o aconchego dos abraços à noite (na falta de abraços, que não falte o cobertor com cheiro de guardado, ansioso para ser usado).
Há um jeito de travessura nesse pulo invisível que o tempo deu e ninguém notou: ontem era verão, mergulhava em um mar de espuma, bebia chope madrugada adentro. Já hoje fez-se um tempo esquisito, que mistura sol e frio, caminhadas e preguiça; ventos, folhas, paisagens pintadas de amarelos e marrons, lembranças, calçadas que se esvaziam ao entardecer...
Afinal, será que esse lapso de tempo aconteceu somente comigo ou faz parte de uma natureza que eu jamais percebi?
Levanto a gola do casaco como quem faz continência para a majestade do cenário, mas não me convenço que existam ciclos na maturidade. Assisto as estações passarem como meros calendários, cujas figuras são trocadas e admiradas por um certo tempo. Admiro alguns vultos que trocam as vestes e não permanecem iguais, como se suas identidades estivessem na frágil concepção da moda: algodão, linho, seda, sarja, lã, cashmere... Transformo-me em estilista, sem estilo; apenas observadora de tendências fashions e previsões climáticas.
Sou louca, pirada, mordaz, incapaz, audaz... Adoro rimas e o tempo... Esse tempo que muda de fora para dentro, desculpando-nos pelo envelhecimento das folhas que caem e nos transformando em mártires da nossa própria decadência.
Observo a jovem com uma minissaia primaveril; vejo o executivo no seu eterno inverno engravatado; divirto-me com as crianças à beira mar e sobrevivo a esse outono eterno, de lembranças e galhos secos...
No meu delírio, tento refazer meus passos, voltar à juventude: observo o mar, procuro flores para colher, quero voltar à serra para tentar ver neve... Mas não há como voltar (como os jovens costumam dizer: “a fila andou”). No meu caso, o tempo disparou num galope desenfreado e sem rumo.
Revejo a igreja coberta de hera, que se transforma a cada estação. Ela é o meu relógio biológico e atemporal... Quando eu me for, quando eu realmente partir, a igreja vai permanecer naquela mesma esquina, como calendário vivo que não se cansa de alertar para a finitude da vida e para a imortalidade da fé.
Meu ânimo muda quando chega a noite e o garçom coloca à minha frente uma tulipa de chope. Festejo o final do verão como se muitos outros tivesse – ou, talvez, esteja festejando justamente a ignorância de não saber quantas estações ainda me restam.
Como um trem, observo as plataformas sem sair dos trilhos. Apenas admiro as mudanças e me preparo para o fim da linha como máquina cansada e sem opções. Pronta para ser substituída.
Sou um trem nesse vai-e-vem, entre o mal e o bem, consciente do que está aqui e do que imagino além... Poeta de mal sucedidas rimas e linhas. Estatística sem nome. Observadora do que ninguém mais vê (e, se vê, não liga).
Abandono o papel e a caneta para continuar caminhando nessa paisagem de outono: rumo à uma estrada real, à uma vida imortal, a um tempo ideal...

sexta-feira, 28 de março de 2008

É OUTONO...



"Quando eu piso em folhas secas, caídas de uma mangueira..."

segunda-feira, 24 de março de 2008

NOSSOS CAMINHOS


(Lembranças da Faculdade de Direito/UFPel)


Todos os caminhos me levam ao teu encontro

As estrelas me lembram o brilho do teu olhar

O sol irradia a intensidade do teu sorriso

A lua me faz lembrar o romance que nunca aconteceu de fato

As ruas, as pessoas, os prédios, os carros... tudo me faz lembrar a vida que carregas

Em cada gesto, em cada olhar...


Todos os caminhos me conduzem à doce lembrança da tua existência:

É os perfume das flores, lembrando noites de primavera

É o frio cortante do inverno, lembrando o aconchego da tua simples presença

É a rua onde nos encontrávamos, lembrando que coincidências fazem parte de um plano maior


Todos os caminhos me trazem tua imagem nítida e colorida

Tua pele morena sob a roupa de verão

Teu cabelo ao vento no outono

Teu andar vaidoso

Teu olhar cheio de intenções

Teu silêncio vazio de promessas


Todos os caminhos são compartilhados com a tua imagem

Andando, falando, sorrindo, olhando apenas...

Nunca mais te esquecerei

Também jamais sairei dessa estrada

Onde nos cruzamos

E na qual tenho a esperança

De numa curva qualquer

Voltar a te encontrar!

PRECE DO PERDÃO


"Todo santo tem passado e todo pecador tem futuro - nada é imutável ou irremediável" (Autor Desconhecido)


Se pudesse eu rezar

pediria ao Senhor consciência

a todo homem da ciência

para entender e perdoar


Se soubesse eu rezar

rogaria ao Senhor paciência

e em Seu nome clemência

para a vingança aplacar


Se quisesse eu rezar

contaria ao Senhor da maledicência

que se traveste de decência

para os incautos enganar


Mas, Senhor, não adianta rezar

E nem manter a aparência

Onde nunca houve inocência

Mas só o verbo CALAR


Porisso, Senhor, não peço

Para que aplaque a dor

De quem foi julgado pecador

(Por este, Senhor, eu não rezo)


Eu rezo, sim, pelo ateu

Que julgando estar correto

Não quis que ficasse por perto

Quem nunca nada temeu


Peço perdão, Senhor, pela alegria

De quem mesmo sem argumento

Condenou um elemento

Que julgavam simples alegoria


Por estes, sim, eu Lhe imploro:

O perdão para o que foi feito,

A compreensão para o injusto pleito

(Por estes, confesso, eu choro)


Mal sabem eles que os andarilhos

Crucificados a todo instante

Já possuem o bastante

Para serem Teus verdadeiros filhos


Que seu exemplo não seja em vão

Para que mais uma vez na cruz

Da escuridão se faça luz

E da ignorância nasça a razão!


(Pela Sexta-Feira Santa)

quinta-feira, 20 de março de 2008

quarta-feira, 19 de março de 2008

SUGESTÃO PARA A SEXTA-FEIRA SANTA


BACALHAU DA OFÉLIA


INGREDIENTES

- 600 gr de lombo de bacalhau dessalgado(s)

- 300 gr de batata em rodelas, sem casca(s)

- 2 unidade(s) de cebola em rodelas

- 2 unidade(s) de tomate em rodelas

- 2 folha(s) de louro

- 1 ramo(s) de alecrim fresco(s)

- 100 ml de vinho branco

- 200 ml de azeite

- quanto baste de pimenta-do-reino branca



MODO DE FAZER

Cozinhe o lombo de bacalhau (já dessalgado) em água fervente por cerca de 3 minutos. Retire a pele e as espinhas, dividindo o lombo em lascas grandes. Em uma panela, faça uma camada com rodelas de batata, tomate, cebola e bacalhau. Repita as camadas nessa ordem até utilizar todos os ingredientes. Coloque o louro, o alecrim, a pimenta branca a gosto e regue com o vinho branco e o azeite. Leve a panela ao fogo baixo, destampada, para que cozinhe lentamente e o excesso de liquidos evapore, deixando a mistura mais grossa. Assim que as batatas estiverem macias, retire do fogo e saboreie com um bom vinho. Português, claro...

terça-feira, 18 de março de 2008

Tarja Turunen em sua melhor forma

OFICINA LITERÁRIA HILDA SIMÕES LOPES COSTA


EXERCÍCIO 03/2008
CONTO PROGRAMADO

1) O telegrafista saiu às 5 horas. Estava furioso, pois considerava sua demissão iminente. No fundo, no fundo sabia que sua profissão estava em extinção, mas, infelizmente, não sabia fazer outra coisa e muito pouco estudo tinha.

2) Vestia um casaco grosso, de lã, que só lhe aumentava o peso sobre os ombros, e carregava uma pasta, a fim de consultar um advogado sobre os seus direitos trabalhistas.

3 Sua preocupação era com a família. Como sustentá-la sem o emprego? Além disso, havia sua auto-estima, sua dedicação de quase 30 anos; merecia mais consideração e para tanto iria até às últimas conseqüências...

4) O clima era tenso quando entrou no escritório de advocacia. Já na sala de espera a secretária avisou que demoraria a ser atendido, o que considerava um sinal de mau agouro.

5) Encontrou-se com o Dr. Felipe após quase duas longas horas de espera e ficou surpreso ao ver sair do escritório um colega seu dos Correios, que vinha de cabeça baixa e cuja idéia era a de que não havia recebido boas notícias. Juntamente com o colega, saiu um desconhecido, de terno e gravata, aparentando ser também advogado.

6) Depois de cumprimentar o desconhecido e ser ignorado pelo companheiro de trabalho, foi convidado a entrar no sóbrio escritório. Sentado na confortável poltrona, expôs seus temores, afirmando que a demissão era coisa praticamente certa e cuja idéia era antecipar-se para evitar o pior ou, pelo menos, garantir seus direitos.

7) Depois de discutirem o caso, decidiram que a causa era desnecessária: o Dr. Felipe lhe tranqüilizou informando que o outro telegrafista, que acabara de sair do escritório, cabisbaixo, tinha acabado de ser demitido para assegurar que ele, empregado mais antigo e extremamente respeitado na instituição, permanecesse no emprego.

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
Em 19/03/2008

...................................................................................................................

EXERCÍCIO 02/2008

O INÍCIO DA VIAGEM AO FUNDO DO POÇO

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

Bato a porta com força, sabendo que não voltarei. Na boca, o gosto do pão com manteiga e do beijo sem gosto... Chega de beijos e de pães e de cafés e de acenos... Pelo caminho, a paisagem congelada na memória parece gritar: “- Jonas, Jonas, acorda: isto é só um sonho!” Presto atenção nas crianças com uniformes azuis; devem ir para a escola, as crianças... Sua algazarra se confunde com a buzina dos carros e a minha cabeça dói como a fome. Começo a contar os carros, separando-os por cores e marcas: adoro carros azuis, mas eu os vejo brancos, cinzas, alguns vermelhos – são brinquedos de infância, são brinquedos de sonho, são brinquedos mortais... coloridos, velozes, sem destino! Finalmente, chego à rua de sempre: o boteco, o andaime, a bronca de quem se diz chefe (“-Eu, bebendo a essa hora da manhã?”), o capacete, a cidade lá embaixo como se fosse minha... A cidade dividida em linhas retas que dão em nada! Mais acima, enxergo o rio, a ponte, o horizonte azul e verde feito de céu e mato. Quisera voar como um pássaro, mas esses gritos me chamam, e mandam, ordenam, cobrem minha visão de concreto e lágrimas. As crianças – volto a pensar nelas – onde andarão? Espero que sejam diferentes dos pais, de todos os pais do mundo, de toda a mesmice que transforma criação em vagabundagem. Quisera voltar à infância, mas com a coragem e a determinação que tenho agora! Ouço gritos de indignação: será o meu chefe ou o meu estômago? O feijão e arroz, com um ovo frito, mata a minha fome mas não sacia a minha sede de liberdade... Asas, onde eu as encontro? Alguém sabe? Por favor, ajudem-me... Escuto alguém chamando uma ambulância e fujo (disfarço). Não suporto mais tragédias, não quero mais sentir a dor dos ferimentos alheios, desisto do dia seguinte para poder viver um dia, ao menos – nem isso, uma tarde... Uma tarde que vira noite, uma noite que vira manhã, uma manhã que vira dia, um dia que vira presente... E o futuro, onde está? Existirá futuro? Presto atenção no nordestino de sotaque estranho: odeio sua humildade, sua carne seca com farinha, sua cabeça chata, seu sorriso sem dentes... Eu quero ser alguém dentro de mim, dentro do meu próprio espaço que acabou virando um país estranho e hostil. Viro a cara para o sorriso desdentado e enfrento a malandragem do negro que tenta trocar o salsichão da semana passada pelo meu ovo frito. Deixo de ser bobo: furo depressa a gema e ela se esparrama sobre o arroz como tinta amarela numa tela em branco; pinto meu quadro, forro meu estômago, provoco o negro despeitado, desprezo o nordestino solitário... Sou mau dentro de uma bondade incompreensível: retribuo o que a vida me deu, só isso... O chefe berra que o horário do almoço acabou; completo a rotina arrastando minha preguiça para a liberdade... Dessa vez, pelo menos dessa vez, controlo minha vontade e meus atos. De nada adiantam os gritos: “-Jonas, Jonas, não seja burro... Volta!” Eu odeio o meu nome, eu odeio baleias, eu odeio o meu passado... O andaime balança meu corpo contra o céu e a sensação de liberdade faz-se inteira. É verdade que ainda persiste o gosto do pão com manteiga e do beijo sem gosto. Mas há de haver outros pães e outros beijos... “-Jonas, Jonas o que está fazendo? Por favor, volta!”. Meu sorriso é de um louco, minha lucidez se perdeu na cidade grande. Caminho liberto de mim, do que me obrigaram a ser, do que não sou... “-Jonas, Jonas, ainda podes voltar! Esquece essa idéia maluca!”. Maluca é a mentira, a mentira, a mentira... Violentei-me o quanto deu e não devo mais nada a ninguém! Querem minha alma? Que fiquem com ela, tenho ainda um corpo e uma mente vazia – de agora em diante, nela só entrará o que me fizer feliz. Para começar, a garrafa de cachaça e as ruas desertas. Estas ruas que desconheço. Essa embriaguez à qual acabo de me apresentar!
Acordo nos degraus de uma igreja. É até irônico: nunca fui católico, nem de outra religião qualquer... Acredito somente no presente e na minha capacidade de ainda encontrar a paz. A garrafa está vazia e uma boa alma cobriu meu corpo com um ralo cobertor... Não é suficiente para aplacar o frio, mas me faz acreditar na bondade de alguém. Minha cabeça está vazia, como continuar vivendo sem lembranças? Então vejo as crianças, nos seus uniformes azuis, e lhes aceno timidamente...
.........................................................................................................................
Exercício 01/2008

REFORÇO DE CONFLITO (05/03/2008)

(Texto com três parágrafos)

O personagem sabe que passará mais uma noite sem dormir. (4a)

Deitado sobre caixas de papelão e jornais, Jonas tenta acomodar-se apesar do frio. Impossível! O gelo penetra na pele e na alma, congelando seus pensamentos e impedindo qualquer reação. (1)

Senta-se e pensa no passado que somente ele conhece. É um mendigo, mas sua dignidade aflora na maneira como preserva suas lembranças e seus desejos. (2)

De repente, o vento gélido da noite coloca em suas mãos uma folha de jornal. Abre-a com a intenção de reforçar sua proteção contra o frio, mas algo lhe chama a atenção: uma foto em preto e branco que mostra o passado que tenta esquecer. (3)

Dessa vez, a vigília não será por culpa do frio! (4b)
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
..................................................................................................................


























sexta-feira, 14 de março de 2008

Precisando de um mecânico? Dá uma olhada...


Leve o seu carro nessa "alfisina" para regular a infecção eletrônica, leva...

quinta-feira, 13 de março de 2008

TARJA TURUNEN - A VOZ


Quando a musa metálica Tarja Turunen saiu – ou melhor: “foi saída” – da banda finlandesa Nightwish, foi justamente no momento de maior prestígio do grupo, quando eles finalmente ultrapassaram as barreiras do gueto dos headbangers e atingiram até a molecadinha mais pop da geração MTV, conquistando em cheio os fãs do Evanescence e congêneres. Que a moça ia continuar em carreira solo no mundo da música, não havia a menor dúvida. Mas o que os fãs queriam saber é: ela vai optar por que tipo de som? Rock? Metal? Pop? Música clássica? Ópera? O disco “My Winter Storm” traz a resposta para esta dúvida em uma mistura de tudo isso, com produção absolutamente impecável. Mas será que funciona – em especial para aqueles que esperavam uma continuação do que ela fazia no Nightwish?

quarta-feira, 12 de março de 2008



OLÊ, OLÁ
Composição: Chico Buarque
Não chore ainda não, que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui pode passar e ouvir
E se ela for de samba há de querer ficar
Seu padre toca o sino que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança, que o samba é menino
Que a dor é tão velha que pode morrer
Olê, olê, olê, olá...
Tem samba de sobra, quem sabe sambar
Que entre na roda, que mostre o gingado
Mas muito cuidado, não vale chorar
Não chore ainda não, que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga, me perdoa, se eu insisto à toa
Mas a vida é boa para quem cantar
Meu pinho, toca forte que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida, nem fale da morte
Tem dó da menina, não deixa chorar
Olê, olê, olê, olá
Tem samba de sobra, quem sabe sambar
Que entre na roda, que mostre o gingado
Mas muito cuidado, não vale chorar
Não chore ainda não, que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
É um samba tão imenso que eu às vezes penso
Que o próprio tempo vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco, que é pra o meu samba poder chegar
Eu sei que o violão está fraco, está rouco
Mas a minha voz não cansou de chamar
Olê, olê, olê, olá
Tem samba de sobra, ninguém quer sambar
Não há mais quem cante, nem há mais lugar
O sol chegou antes do samba chegar
Quem passa nem liga, já vai trabalhar
E você, minha amiga, já pode chorar

terça-feira, 11 de março de 2008

PARA REFLETIR


EM NOME DO PAI

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

“O mundo não está ameaçado pelas más pessoas, mas sim por aquelas que permitem a maldade”
(Albert Einstein)

Lançado em 1993, o filme “Em Nome do Pai” conta a história real de Gerry Conton, um irlandês ocioso e arruaceiro que, em meio às costumeiras brincadeiras e provocações, acaba irritando o Irish Republican Army (Exército Revolucionário Irlandês). Para poupar o filho de represálias, o sossegado e aparentemente frágil Giuseppe Conton manda-o para a Inglaterra: mas Gerry dá o azar de estar no lugar errado e na hora errada quando um violento ataque terrorista do IRA destrói um bar freqüentado por soldados ingleses.
Gerry e mais três irlandeses imediatamente se transformam nos principais suspeitos e ele, assustado e intimidado por policiais revoltados, cede à pressão, confessa sua participação no atentado e, embora inocente, acaba sendo condenado à prisão perpétua juntamente com o pai que tentou ajudá-lo.
A convivência forçada com Giuseppe, numa cela minúscula onde só há espaço para livros e idéias, desperta em Gerry a admiração pelo homem forte, sábio e bom que é seu pai. Aos poucos, o garoto arrogante é contaminado pelas qualidades daquele irlandês injustamente privado da pacata vida que levava e, determinado em provar a verdade, inicia uma luta incansável para inocentar principalmente o pai, vítima da sua inconseqüência juvenil.
********************************************************
Atrevo-me a narrar um mal-elaborado resumo de “Em Nome do Pai” porque este é um filme instigante, forte, persistente... assim como deve ser o bem diante da maldade que ainda encontra espaço em nosso mundo e tolerância em nossos corações.
Nas últimas décadas vencemos pacificamente uma ditadura cruel no trato com intelectuais e devastadora no meio cultural; retomamos a democracia com a cara pintada de entusiasmo e esperança; sofremos e nos solidarizamos com as grandes tragédias que se abateram sobre a humanidade; anulamos os efeitos de inescrupulosos fabricantes de produtos cancerígenos (principalmente de cigarros e de pesticidas também nocivos ao meio ambiente); iniciamos um processo de conscientização político-social e descobrimos que todo ser vivo é um milagre da Criação que precisa ser protegido (aí está a Campanha da Fraternidade de 2008 para corroborar o que escrevo). Nunca fomos tão críticos, religiosos e “politicamente corretos”!
Então, por que a maldade continua fazendo estragos na sociedade e gerando medo nos indivíduos?
Infelizmente, ainda “pagamos” para não nos incomodarmos; ignoramos as más ações que não nos atingem; defendemos única e exclusivamente o que é do nosso interesse (quando ajudamos alguém, geralmente pensamos em aplacar nossas culpas ou garantir a absolvição no julgamento de uma sociedade tão indiferente quanto o é nossa consciência).
Acredito que o número de pessoas boas é infinitamente maior do que o de pessoas más, porém, as boas costumam ser tímidas e se retrair ao menor sinal de conflito, enquanto as más são audaciosas, arrogantes e (fato curioso) possuem a convicção de estarem sempre com a razão.
Mesmo longe de poder ser considerada uma pessoa boa, tenho lutado contra o mal nas entrelinhas das minhas atitudes. Vencida minha natural timidez, cedi à uma consciência adquirida com a dor: dor da igualdade, de saber que também eu estou sujeita aos infortúnios que, em tempos de prosperidade, parecem tão distantes; dor da responsabilidade, ao entender que ignorar o mal feito à outrem torna-me egoísta e igualmente má: dor da impotência, quando a maldade se traveste de manhas e artimanhas além da minha capacidade de entender.
A consciência adquirida com a dor da minha própria fragilidade, entretanto, ainda está distante da minha capacidade de praticar o bem, mas tento resistir à maldade alheia tendo por arma, na maioria das vezes, apenas a minha indignação.
É claro que o ser humano tem limitações e que a compreensão da bondade está condicionada ao seu adiantamento moral e intelectual, no entanto, todos nascemos com o livre arbítrio para praticar o bem ou o mal: basta colocarmo-nos na situação daquele a quem dirigimos nossas ações e avaliarmos com imparcialidade se houve justiça nos gestos, nas palavras e, muitas vezes, nas idéias pré-concebidas que destroem realizações e anulam possibilidades de crescimento para quem deveria dar e receber o que cada um tem de melhor.
*******************************************************
No filme citado, assistimos a uma seqüência de vitórias do bem sobre o mal: o renascimento do amor entre pai e filho; a dedicação de uma advogada íntegra e decidida que aceita defender os dois; a mobilização da opinião pública internacional sobre a verdadeira situação de uma Irlanda dividida e subjugada pela Grã-Bretanha e, finalmente, a absolvição dos réus independentemente da intervenção do grupo radical irlandês.
Mas a mensagem que fica é mesmo a luta de dois irlandeses inocentes contra o julgamento da corte inglesa, arrogante e vingativa. Eles não libertaram a Irlanda do Norte das mãos dos opressores, mas devolveram o sentimento de dignidade ao povo e fortaleceram a força nacionalista que luta pela unificação do país e pela libertação do jugo britânico – a saber, existem duas facções do IRA: uma que apela à força, praticando atos de terrorismo e outra que luta pelos mesmos ideais, mas através de meios pacíficos..
Além disso, o filme nos leva à reflexão de que existem várias formas de lutar contra o mal e que nem sempre atitudes extremas mostram-se eficazes. Ao seu modo, Giuseppe também combateu o mal vivendo pacificamente e com dignidade numa Belfast invadida e ferida em sua soberania.
********************************************************
Devidamente ilustrada, esta crônica se desvincula da história transposta para o cinema e se encaminha para o final despojada de quaisquer outras comparações (daqui para a frente, toda e qualquer semelhança é mera coincidência).
Todos temos condições de fazer o bem: um cumprimento; um sorriso; o interesse por algo ou por alguém que é importante para uma outra pessoa; a defesa dos direitos de quem os desconhece ou não tem como buscá-los; o gostar; o respeitar...
Somente a indiferença e a omissão estão proibidas no vocabulário de quem optou por combater a maldade: a primeira é o mal dos covardes e a segunda é a covardia dos maus. Em ambos os casos, abrem-se portas para sentimentos inferiores e se permite que o terreno se torne fértil para as sementes do mal.
Cabe a cada um de nós fazer a verdadeira justiça triunfar. Não a justiça dos gabinetes, das palavras inúteis, da hipocrisia, da decadência; mas a justiça que vence provações porque não habita no que é dito, mas, sim, naquilo que é efetivamente realizado.

EDUCAÇÃO É PROGRESSO!


O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, eu creio que podemos começar lembrando que uma das provas de que o professor no Brasil não é a categoria com o prestígio que merece é o fato de que nós tentamos tanto ter uma sessão especial para os professores no dia de hoje e não conseguimos.
Dia 3 de setembro, eu dei entrada a um pedido de uma sessão especial no dia de hoje, uma segunda-feira, que não atrapalharia os trabalhos normais. Demorou até o dia 27 de setembro para ser lida. No dia 1º de outubro, o senhor, Senador Mão Santa, estava na Presidência e tentou, sim. Quero agradecer o seu esforço. O Senador Paim pediu que fosse lido aqui o requerimento de criação de uma sessão especial para o professor, e não conseguimos.
Isso é uma das provas do desprestígio, Senador João Durval.
Depois que dei entrada ao pedido da sessão especial, outros fizeram o mesmo e conseguiram sessões especiais.
A Srª Ideli Salvatti (Bloco/PT - SC) - Mas nós estamos fazendo a sessão dos professores.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT - DF) - Nós dois. Mas eu queria esta Casa cheia, com uma sessão especial, com os professores sentados ali. Embora muitos estejam aqui nas galerias, em uma sessão especial, eles estariam sentados aqui, e nós estaríamos debatendo de uma maneira muito mais agradável.
De qualquer maneira, a Senadora Ideli Salvatti, o Senador Papaléo Paes, o Senador Paulo Paim e eu próprio, todos, estamos tratando deste assunto. E quero começar a minha fala dizendo que é comum, Senador Mão Santa - e o senhor é um homem, entre todos nós aqui, conhecedor da História -, nós nos horrorizarmos quando ouvimos falar em dirigentes que queimam livros. Nós nos horrorizamos! Duzentos anos antes de Cristo, um Rei mandou queimar todos os livros que existiam no reino - todos os que não foram escondidos ele queimou - e ainda mandou assassinar todos os poetas, porque eram críticos a ele. Nós nos horrorizamos. Dois mil anos depois, Hitler fez isso. Aliás, quinhentos anos antes de Hitler, a Inquisição fez isso. E nós nos horrorizamos, Senador Paim. Mas não nos horrorizamos com uma coisa tão grave quanto esta. Sabe qual é? Não deixar que os livros sejam escritos. Não deixar que os poetas, que os cientistas se façam cientistas. E é isso que o Brasil faz há quinhentos anos.
A gente não queima livros, a não ser durante o golpe militar. Queimaram-se livros, sim. Mas é fato raro queimar livro. No regime militar, houve muitos intelectuais que tiveram de abandonar o País e muitos foram presos. Alguns, até mortos. Mas foram poucos. Agora, a história inteira do Brasil é uma história de impedir que os livros sejam escritos, de não deixar que os cientistas e intelectuais floresçam. A gente não percebe isso. A gente se choca quando um livro é queimado em praça pública, como tem sido; a gente não se choca quando o livro não é escrito. E no Brasil, há quinhentos anos, a gente impede os livros de serem escritos, porque não dá educação àqueles que seriam os escritores.
Ninguém nasce escritor. Você se faz escritor pela escola; você não nasce um cientista; você se faz um cientista pela escola. Quando você nega a escola, você impede um ser humano de se desenvolver intelectualmente e virar um cientista, virar um poeta, virar um escritor. E a gente não se horroriza. Nós não nos horrorizamos com o fato de que o Brasil impede, freia, não deixa o desenvolvimento intelectual da nossa população. Isso passa despercebido, como uma coisa normal. Muito mais grave é isso, porque são 500 anos de queima, em vez daquilo que fez aquele imperador chinês, do que fez Hitler, do que fez a Inquisição, do que fez a Revolução Cultural na China nos anos 60. No nosso caso, queimamos os cérebros, jogamos fora os cérebros, desperdiçamos os cérebros. Nem deixamos que eles escrevam seus livros. Quando se escrevem os livros e os queimam, alguns se salvam. No entanto, quando o livro não é escrito, não se tem o que salvar: o livro não existe.
Einstein não seria nada, se não tivesse tido uma professorinha primária que ensinasse a ele o abc e as quatro operações. Ele teria sido jogado fora como intelectual, como cientista. O seu cérebro teria sido impedido de se desenvolver, se ele não tivesse tido lá, aos cinco anos de idade, um professor ou uma professora no ensino fundamental.
No Brasil, a gente impede todos os anos que nossas crianças tenham a educação necessária para o seu desenvolvimento. Somos queimadores de livros, porque apagamos os cérebros que vão escrever os livros. A gente esquece isso.
Uma das maneiras de impedir que haja o cérebro que produz foi usada pelo Brasil, quando era Colônia, impedindo que aqui existissem editoras e gráficas e não deixando que aqui houvesse escolas, a não ser aquelas que tinham o objetivo único de promover a religião. Essas não eram escolas, eram catecismos. O Império substituiu a Colônia, e pouco mudou, Senador João Durval. Pouco mudou depois da Independência. Dom Pedro, obviamente, fez belíssimas escolas, mas poucas e para poucos, até porque, durante todo o Império, o Brasil teve um regime de escravidão; apenas um ano a escravidão acabou antes do Império.
Então, ao longo de todo o Império, os negros, neste País, não podiam desenvolver o seu potencial intelectual, Senador Paulo Paim - V. Exª que é um descendente deles. Quantos gênios da raça negra este País perdeu porque não tiveram uma boa escola na hora certa? Quantos? Foram dez milhões de escravos que chegaram a este País; muitos foram descendentes deles. Quantos gênios não perdemos aí? Quantos? Mas o Império não deixava que houvesse o pleno desenvolvimento intelectual. Queimava os livros que seriam escritos pelo povo negro; queimava antes de eles serem escritos. Queimava as teorias que poderiam ter sido desenvolvidas; queimavam antes de serem desenvolvidas.
Mas não eram somente os negros, escravos; a população branca pobre também ficou excluída das escolas. Dom Pedro fez belos colégios, mas pouquíssimos, para uma minoria, para uma elite, que ia ter acesso àquela educação.
Mas o Império acabou, e nós tivemos uma República. E o que mudou nessa República? Pouco, do ponto de vista do florescimento intelectual do nosso povo; pouco, do ponto de vista do desenvolvimento da produção de ciência e de tecnologia. E hoje, quase 120 anos depois da proclamação da República, o Brasil ainda é um país que tem uma escola para rico e uma escola para pobre.
Um país que tem escolas diferenciadas não merece o nome de República, porque República significa "causa do público", todos terem os mesmos direitos.
No Brasil, o direito de desenvolver o próprio cérebro é desigualmente concedido. A gente fala em direitos humanos para ir e vir. Mas que direito humano é esse, para ir e vir, que não desenvolve igualmente o potencial intelectual de cada criança ao nascer? Ir e vir, fisicamente, é um direito de qualquer animal. Não é um direito específico do ser humano. Para o ser humano, o direito é a liberdade de ir e vir e o direito de promover a sua capacidade intelectual, de desenvolver o seu lado humano, que não é apenas o andar de um lado para o outro, mas o pensar de uma maneira ou de outra. É entender o mundo de uma maneira ou de outra, é deslumbrar-se com as coisas do mundo de uma maneira ou de outra conforme o seu gosto ou a sua preferência artística.
Isso a gente não dá ao povo brasileiro. E a melhor maneira de mostrar que a gente não dá é o desprezo que este País sistematicamente dá aos seus professores e às suas professoras. É certo que já houve um tempo em que o professor e a professora tinham tratamento melhor. Mas sabem quando? Quando os professores e as professoras atendiam apenas à população rica, privilegiada, e não atendiam às grandes massas. Nós nos acostumamos a dizer que, antes, os professores eram bem respeitados - mas eram poucos; que as escolas públicas eram boas - mas eram poucas. Poucos tinham o direito e acesso àquelas escolas. Primeiro, se não morassem ao lado delas, tinham de ter um automóvel para ir lá, porque eram tão poucas que não havia perto das casas das pessoas. Diz-se que antigamente era um orgulho um homem casar com uma professora. Ser marido de professora era status. Mas eram poucas.
Quando as massas entram nas escolas, pela pressão da urbanização, o que é que faz o Poder no Brasil? Abandona as escolas aos municípios. Concentra seu dinheiro federal nas universidades e nas escolas técnicas, porque a economia precisa, mas abandona o ensino fundamental.
E aí começa a degradação do salário do professor e a degradação do respeito ao professor. Não é que tenha baixado o salário: é que os outros subiram também, porque outros passaram a ser respeitados. Porque, quando o Brasil entra na fase da idéia de que o futuro e o progresso estão no desenvolvimento econômico, os engenheiros passam a ganhar bem, os economistas passam a ganhar bem, os geólogos passam a ganhar até para estudar, mas o ensino fundamental é abandonado.
E é abandonado sobretudo aquele que faz a escola, que é o professor. O futuro de um país é perfeitamente visível, Senador João Durval. Hoje, se o senhor quiser ver o futuro do Brasil, é fácil: visite uma escola pública. A cara do país do futuro é a cara da sua escola hoje. É óbvio isso. A cara do futuro de um país é a cara da sua escola pública hoje. E a cara da escola pública é o rosto do professor e da professora. Escola degradada hoje, futuro degradado para o país. Professor descontente hoje é um futuro negativo para o país inteiro.
E hoje a gente sabe que os professores brasileiros compõem uma categoria. Falo dos professores da educação básica. Não quero falar do professor do ensino superior, porque eu estaria falando em causa própria. Não quero falar em causa própria, como professor do ensino superior, até porque o tratamento para nós é diferente do tratamento para o professor do ensino médio, do ensino fundamental e da pré-escola.
O professor da educação de base, pré-escola, ensino fundamental e ensino médio, é uma categoria que não tem merecido do País a idéia de que eles são os construtores do futuro. Não tem! A gente vê, como construtores do futuro, os engenheiros, até os pedreiros, os que fazem estradas, os que fazem um prédio, os que montam uma indústria. A gente não vê, como construtor do futuro, o professor, que ensina as quatro operações, que ensina o abc, que ensina história, geografia, que dá cidadania. A gente não o vê como construtor do futuro. E são eles os construtores do futuro.
Quando a gente vê um foguete subindo, a gente vê, naquela plataforma de onde sai o foguete, o futuro voando. Mas a plataforma de onde sai voando no espaço do futuro um país inteiro é a escola. A gente não vê a escola como a plataforma do futuro. E é lá que o futuro decola ou não.
Durante anos, falou-se no tal do "decolar" na economia. Nunca se falou que, para um país decolar, é preciso ter, sobretudo, educação, sobretudo cultura. Só que, até aqui, dava até para se enganar, achando que, para um país ter futuro, bastava educar uma pequena elite, uma pequena minoria, um pequeno conjunto de profissionais superiores. Não é mais possível isso. Acabou!
Houve uma ruptura no final do século XX, entrada do século XXI, em que a economia não tem mais futuro, apenas com poucos. Daqui em diante, ou educamos todos ou não temos futuro. Primeiro, se não educamos todos no ensino médio, a gente vai ter poucos alunos competentes no ensino superior, porque quem entra na universidade é escolhido no vestibular. Porém, no vestibular de hoje, só 18% são capazes de concorrer, 82%, Senador Eurípides, a gente joga fora; 82% a gente joga fora, não deixa nem ao menos que disputem o vestibular. A gente está perdendo 82% do nosso potencial. Imaginem se a seleção brasileira de futebol fosse escolhida entre apenas 18% de nossos jovens, se só 18% pudessem entrar em campo de futebol para se saber quais são os melhores. Não íamos ter os grandes, porque 82% ficariam de fora. Essa é a primeira causa.
O futuro está no conhecimento. Esse microfone aqui não tem valor por causa da mão-de-obra que o produziu, não tem valor por causa da matéria-prima que é muito pouca. O valor desse microfone vem da quantidade de engenheiros, cientistas que desenvolveram as peças que estão dentro dele. A gente paga a eles sem saber quem são. O dinheiro não fica aqui. O dinheiro vai para quem desenvolveu. Quando se compra um remédio, o dinheiro pago não vai para a fábrica que fez a pílula, não vai para o trabalhador que fez a pílula, porque foi um robô que fez, mas vai para o cientista que desenvolveu a fórmula daquela pílula. Isso vale para tudo hoje.
Então, ou a gente desenvolve um potencial científico-tecnológico ou ficamos para trás.
E lamentavelmente a maior parte inclusive dos nossos jovens nas universidades e dos nossos professores universitários não percebe que, se a universidade é a fábrica do futuro, o Ensino Fundamental é a fábrica da universidade. A universidade nasce no Ensino Fundamental. Ela passa pelo Ensino Médio. Eles não entendem! Eles acham que podem melhorar a educação superior sem termos uma educação realmente universal e de qualidade para todos. E aí está o professor. O professor é o construtor. Mas não é só construtor. É o professor que vai permitir a este País derrubar duas coisas: derrubar o muro da desigualdade e derrubar o muro do atraso. É o professor!
A gente achava que quem derrubava o muro do atraso eram os engenheiros que faziam as fábricas, eram os economistas que aumentavam o Produto Interno Bruto, porque, aumentando o Produto Interno Bruto, diminuiria a desigualdade. É falso. O muro que separa neste País os pobres dos ricos só será derrubado por uma escola igual para todos. Esse é o slogan que as esquerdas brasileiras deveriam adotar: "escola igual para todos". Não é renda igual para todos, é escola igual para todos. E a gente não quer fazer isso, porque escola igual para todos exige, em primeiro lugar, salários altos para os professores. Mas não só isso, porque só salário não melhora a sala de aula. Salários altos e exigências altas aos professores. Exigência na formação deles, exigência na dedicação deles e exigência nos resultados do trabalho deles.
O muro da desigualdade só será derrubado, daqui para frente, pela escola igual entre pobres e entre ricos. E nada talvez seja mais difícil de convencer neste País de que é possível do que essa idéia radical de escola igual para pobres e para ricos.
Se a gente disser que o transporte urbano vai ser igual para pobres e para ricos, metrôs de alta qualidade para todos ou todos com automóvel, todos acreditam, mas, se a gente disser que a escola vai ser igualmente boa para pobre e para rico, poucos acreditam; se a gente disser que, a partir de agora, todos os pobres vão poder comer nos melhores restaurantes, todos acreditam, mas, se a gente disser que todos os pobres vão poder estudar nas melhores escolas, poucos acreditam.
Não há outra maneira de derrubar a desigualdade neste País, que separa uma parte da população, uma minoria, de outra parte da população, uma maioria, a não ser a escola igual para pobre e para rico. Mas não é só o muro da desigualdade que os professores, os verdadeiros revolucionários, vão derrubar; o muro do atraso também, o muro do atraso entre nós e os outros países. Não há outro jeito de derrubar esse muro que nos separa dos países ricos e desenvolvidos a não ser uma escola de qualidade no Ensino Fundamental, no Ensino Médio, na Pré-Escola e no Ensino Superior. Não há outro jeito.
Acabou o tempo em que a gente dizia: "quando a renda per capita do Brasil for alta, vamos ser iguais a eles". Não vamos ter renda per capita alta se não fizermos a revolução educacional. Hoje a revolução não passa pela economia, passa pela escola. A revolução não passa mais pela propriedade, por quem é o dono da fábrica, se é o Estado ou uma pessoa privada. Não há mais necessidade de estatizar indústrias para fazer uma revolução, mas é preciso fazer, sim, a distribuição do conhecimento. Não é a distribuição da renda que vai mudar a realidade, mas a distribuição do conhecimento.
E conhecimento não se distribui tirando de um para o outro, mas com o acesso de todos a uma escola de qualidade igual; escola igual para pobre e para rico. E essas escolas iguais aqui tão boas quanto às lá de fora. Isso é outra coisa que a gente não quer acreditar que é possível. Mas é possível. É possível e passa pelo professor, mas não só pelo professor; passa pelo salário do professor, mas não só pelo salário do professor; passa pelo salário com condições de trabalho, passa pelo salário com dedicação no trabalho, passa pelo salário com formação, passa pelo salário com equipamentos, passa pelo salário do professor com regime de tempo integral para todas as crianças deste País.
Por que no futebol a gente consegue que os pobres cheguem à Seleção e, na educação, a gente não consegue que os pobres cheguem a altos postos? Porque a bola é redonda para todos, mas a escola é redonda para uns e quadrada para outros.
Se neste País a gente obrigasse os pobres a treinarem futebol com bola quadrada, eles não chegariam à Seleção de futebol, onde a bola é redonda. Mas a gente inventou que há escola redonda e há escola quadrada. E é claro que a escola redonda a gente reservou para os ricos e a escola quadrada, para os pobres. Por isso, só a escola pública vai ser capaz de fazer a revolução.
Isso não quer dizer que se deva tomar qualquer medida contra a escola privada, de maneira alguma. Felizmente elas existem. Mas a gente tem que dar condições para que a escola pública seja tão boa que compita com as escolas particulares. E aquele que preferir que seu filho estude numa escola particular, por razões de formação religiosa ou para poder aprender alguma coisa especial que a pública não precisa ensinar, muito bem, que continue.
E vou até mais longe: se em algum momento for preciso, nessa revolução, incorporar as escolas privadas nos esforço público, vamos fazê-lo. Não se faz isso já com o ProUni para as universidades? Não se paga para que um jovem estude na universidade recebendo dinheiro público? Podemos fazer isso sim, também, com a escola de Ensino Fundamental e Médio. Eu não acho que isso seria privatizar; isso seria subordinar o privado aos interesses públicos, desde que a criança estude de graça e desde que aquela escola siga as normas nacionais.
Essa revolução a gente tem que fazer. E o Dia do Professor é um bom momento de fazer essa reflexão. Eu não vim aqui apenas prestar homenagem aos professores. Eu vim aqui, sem dúvida alguma, para dizer que são eles os construtores do futuro. Mas eu vim dizer mais. Eu vim dizer que eles têm uma responsabilidade maior do que essa, maior do que a de dar aula, maior do que a de educadores. Eles têm a responsabilidade de serem também os soldados, os guerrilheiros dessa revolução que a gente tem que fazer pela educação.
Mas eu prefiro deixar para fazer a segunda parte da minha fala depois de ouvir o Senador Mão Santa, que muito me orgulha que peça um aparte.
O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Professor Cristovam Buarque, Paulo Paim - que, quis Deus, está presidindo -, eu já disse aqui para o Brasil que este é um dos melhores Senados da história da República. Paulo Paim, tirando os Senadores portugueses, nós éramos quarenta e poucos brasileiros no início do Senado. Quando D. Pedro I vinha aqui, entrava e reconhecia-nos como os pais da Pátria. Aprenda, Luiz Inácio! Ele deixava a coroa e o cetro. Então, está aí o Professor Cristovam Buarque. Não interessa que o plenário não esteja repleto; interessa sua cabeça, sua mente, seu caminho. Ele pode dizer até o que disse Cristo: "Sou o caminho, a verdade e a vida". Ele se iguala a Rui Barbosa, que está ali. Rui Barbosa foi candidato a Presidente da República. Não venceu as eleições, mas todos nós reconhecemos o muito que ele fez pela democratização deste País, pela liberdade dos negros, pela igualdade e, sobretudo, pela justiça, pelo trabalho. Quis Deus estar aí o Senador Paim. Considero este um dos maiores ensinamentos de Rui Barbosa: a primazia tem de ser do trabalho e do trabalhador. Ele vem antes, ele faz a riqueza. E o Professor Cristovam revive tudo isso. Revive Pedro Calmon, João Calmon e Darcy Ribeiro. Está muito melhor. Luiz Inácio é que tem de estar atento. O felizardo é Luiz Inácio, que nunca teve tanta oportunidade. É aqui a escola. Nós somos, temos de ser. Se não tivermos essa experiência, não vale. Quando isso começou? Olhem a sorte de Luiz Inácio. Pedro I tinha a humildade de, toda vez que vinha aqui, deixar o cetro e a coroa. Pedro II dizia que, se não fosse Imperador, queria ser Senador. Um homem de muito estudo. Quando ele morreu, Paim, lá na França da Notre Dame, os franceses disseram que, se tivessem um imperador como ele, não fariam a democracia e ficariam na monarquia, porque era um homem bom, culto. Mas o primeiro Senado tinha quarenta e poucos brasileiros, entre os quais vinte magistrados, que, de lá para cá, vieram fazendo leis boas só para eles. Quanto ganha um magistrado e quanto ganha uma professorinha? Não estou contra ele, não, porque estamos para ensinar o Luiz Inácio a ver essa desigualdade. Quanto ganha um magistrado e quanto ganha uma professorinha? Paim, sei que eles devem de ganhar bem. Rui Barbosa disse que só há um caminho e uma salvação: a lei e a justiça. Mas as nossas professorinhas... Havia sete militares - Duque de Caxias foi um deles -, sete da Igreja - o Padre Feijó, um dos homens da República -, dois médicos e dois ligados ao campo, fazendeiros. Não havia nenhum professor. Agora nós temos. Temos um professor extraordinário, que é V. Exª, e há outros a quem compete fazer esse despertar que V. Exª está fazendo. Esta é a verdade. O Wellington Salgado defende o desenvolvimento das universidades, o Aloizio Mercadante é professor, assim como a Fátima Cleide e a Ideli, que veio agora em nome do PT e fez um belo pronunciamento, a Serys é professora, o Sibá vem de uma escola técnica rural e o Tião Viana, nosso Presidente, também é professor de Medicina. Também são professores a Marisa Serrano e o Cristovam Buarque.
Eu vejo nisso o despertar. Foi emocionante a sessão que o Paim fez no Dia das Crianças. Lá circulava uma bandeira que sei que era uma advertência de V. Exª para novos rumos. Dizia ali que, em lugar do lema positivista "Ordem e Progresso", talvez pudéssemos ter tido o lema que Cristovam prega hoje: Educar é Progresso. Então, queremos aqui nos congratular. E o Luiz Inácio deve ajudar, porque este Senado, só na área da Educação, tem muitos a seguir. Agora, essa diferença dos salários não pode, é demais. Eu sei que um magistrado precisa ganhar bem, mas ele não tem trinta estômagos e a professora apenas um... Tem que haver uma aproximação, uma elevação. No mínimo, temos que conseguir aquilo que o Governo do Acre, que é do Partido dos Trabalhadores, dá para os professores, que é o maior piso salarial do Brasil, mostrando que é um Estado economicamente pequeno mas que tem esse reconhecimento. Mas quero dizer, Professor, que no Dia das Crianças eu fazia um pronunciamento já antevendo isso. Sócrates disse que só há um grande bem, que é o saber, e só há um grande mal, que é a ignorância. Eu recebi - vejam onde quero chegar - uma carta de Maristela Kubitschek Lopes, filha de Juscelino Kubitschek. Ela dizia que Juscelino terminou sua carreira política aqui na cadeira de Minas. Ele foi cassado e humilhado. Na carta, ela agradecia, porque ouviu o pai, várias vezes, dizer que sua mãe, a professora Dona Júlia... Juscelino, Luiz Inácio, era pobre. Perdeu o pai, tuberculoso, aos quatro anos. Ele só viu o caixão passar e não pôde nem se aproximar, por causa do contágio. Quer dizer, na própria infância, ele pouco viu o pai, porque tinham que morar separados. Então, filho de viúva, viu, com a irmãzinha, passar o caixão do pai. Mas o que Juscelino repetia, o ensinamento da sua mãe, professora, Dona Júlia, para todos, é muito atual. É quase de Sócrates, não é? Ele dizia que sua mãe, professora, viúva, ensinava para Juscelino: "Meu filho, não tenha vergonha de ser pobre. Tenha vergonha de ser ignorante. Busque o saber." V. Exª está encaminhando o saber para todos os brasileiros.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT - DF) - Obrigado, Senador Mão Santa.
Retomo apenas a idéia inicial, Sr. Presidente, de que nós nos horrorizamos com os regimes que queimam livros e nos acostumamos, no Brasil, com regimes sucessivos que queimam cérebros, que nem ao menos deixam os livros serem escritos, por não ensinarmos a ler as crianças que um dia seriam escritoras. Por isso, não damos a importância devida aos professores.
Um dia desses, Senadores, eu estava em uma cidade do interior de Santa Catarina e, depois de uma fala, uma jovem me procurou e disse: "O senhor fala muito em educação. Mas, se tivesse um amigo que chegasse para o senhor e dissesse que seu filho quer ser professor primário, o que o senhor faria? Suponha que o senhor fosse amigo do homem e que aquele fosse seu afilhado, o que o senhor diria?" Eu respondi que diria a ele que aquele filho estava se alistando no serviço militar em tempo de guerra, que corria risco de morrer, mas que ele era um herói, e dos heróis temos de nos orgulhar, e não impedir o caminho deles.
Hoje, ser professor no Brasil é um ato de heroísmo. É um ato de heroísmo, em primeiro lugar, pela alta probabilidade de não ter sucesso financeiro. Em um país como o nosso, não ter sucesso financeiro é um sacrifício de alta dimensão.
Em segundo lugar, são heróis, sim, em razão do alto risco que se corre nas escolas, Senador João Pedro. As escolas estão degradadas, a saúde dos professores é prejudicada pela maneira como as escolas são tratadas e até mesmo, hoje, os professores são vítimas de violência neste País.
Eles são nossos heróis! Se este País estivesse em guerra e tivéssemos soldados morrendo no campo de batalha, faríamos monumentos para eles, e não estamos fazendo monumentos para os professores.
Mas o mais importante não é fazer monumentos para soldados mortos, e sim ganharmos a guerra, trazendo de volta para casa todos os nossos soldados. E os nossos professores estão aí. Por que vamos esperar que eles morram no sentido de se sentirem reduzidos em seu prestígio, por causa de seus baixos salários? Por que não aproveitamos que eles estão nessa guerra pela derrubada do muro da desigualdade, do muro do atraso e pela construção de um grande país e não lhes damos o prestígio que merecem? Temos que fazer isso! Mas os professores precisam colaborar.
Quero concluir, no dia deles, fazendo uma cobrança, depois de todos os elogios que fiz aqui. Não vamos conseguir dar o salto, Senador João Durval, na direção de um país em que ao nascer uma criança seu pai diga que seu filho, quando crescer, vai ser professor primário... O Brasil será um grande país quando o pai disser, ao nasceu seu filho, que deseja que ele seja professor. Para chegarmos lá, precisamos fazer uma revolução. Não vai ser com as pequenas evoluções de Fundef e Fundeb... Não vai ser com isso. Sejamos honestos com o Brasil: isso não vai levar ao Brasil que queremos. Isso ajuda, não piora; mas são saltinhos minúsculos! Não são gigantes como os que este País já deu na infra-estrutura, na economia. Ele não dá esses grandes saltos na educação. É preciso uma revolução, e uma revolução se faz com militância, não apenas com palavras.
Por isso, a cada professor deste País eu quero deixar uma mensagem: além de educador, seja também um educacionista. O educador é o que trabalha na escola para ensinar; o educacionista é o que luta politicamente para mudar o País, para fazer com que todas as escolas sejam boas e não apenas aquela onde ele trabalha como educador.
O Brasil precisa de educacionistas, Senador Mão Santa, como houve os abolicionistas. E não é uma questão de partidos ou siglas, como temos hoje. Há pessoas que defendem educação como vetor de progresso em todas as siglas que temos no Brasil. Não há uma única sigla, um único partido que não tenha gente capaz de defender isso. Mas em todos os partidos e siglas tem gente que não defende isso. Joaquim Nabuco não criou um partido novo para a abolição; ele criou uma causa que uniu pessoas de diferentes partidos. O Brasil precisa criar, Senador João Durval, este partido/causa, transversal aos partidos/sigla. As siglas estão significando muito pouco hoje em dia; é a causa que vai nos diferenciar. O "ista" de qualquer sigla não significa muito, mas o "ista" de uma proposta transformadora significa. Já não é mais hoje a proposta socialista, nem comunista, nem capitalista - isso é da Economia - que vai promover a mudança. É a causa da Educação ou não o vetor do progresso, é a causa educacionista que precisamos trazer o professor para defender. Seja bom educador na sala de aula, mas seja um forte educacionista nas ruas, lutando pelas mudanças, como foram os abulocionistas.
Podemos fazer isso. Outros países já o fizeram com menos recursos que nós. Não falta dinheiro para isso, porque não é muito de que se precisa. Não se vai fazer de repente essa revolução. Talvez possamos começar com todas as meninas e com todos os meninos que estão na primeira série do ensino fundamental do próximo ano; depois, com os do segundo; depois, com os do terceiro. Em onze anos, chegamos lá. Ao lado disso, escolher certas cidades que se transformarão em pólo, como exemplo, e todas as suas crianças estudarão em horário integral. Vai haver bons teatros nessa cidade, vai haver bibliotecas de qualidade, até nas praças haverá jogos de xadrez e outras atividades, não faltará piscina para essas crianças.
Não dá para fazer isso nas 5.561 cidades do Brasil, mas dá para fazer em 1.000 cidades, em quatro anos, se o Governo quiser. E se este Governo for capaz de construir um pacto com os outros Partidos, melhor, porque nenhum Governo, só com seu Partido, consegue fazer isso, até porque ele fica poucos anos no poder. É preciso que os próximos continuem o projeto.
Por isso, concluo dizendo que, hoje, é um dia que deveríamos comemorar não com um feriadozinho nas escolas, como ocorre, mas como o Dia 7 de Setembro. Com uma diferença: no Dia 7 de Setembro, comemoramos o passado; e, no dia 15 de outubro, deveríamos comemorar o futuro.
Hoje deveria ser um grande feriado nacional. O feriado de hoje não devia nem se chamar Dia do Professor, mas o Dia em que Começamos o Futuro, o Dia do Construtor do Futuro; o dia daqueles que fazem, por Intermédio das nossas crianças, o futuro do Brasil. Mas, para isso, os professores precisam não apenas ser respeitados, não apenas ganhar bem, não apenas ser bem informados, não apenas ser bem dedicados, senão, de nada adianta. Eles precisam de algo anterior a tudo isto: eles precisam ser, além de educadores, educacionistas; além de trabalharem, precisam lutar; além de trabalharem dentro da sala de aula, precisam lutar no Brasil inteiro, para que façamos a revolução que este País pode e deve fazer.
Trata-se de uma revolução que não desapropria nada, uma revolução em que não é preciso estatizar nada, uma revolução em que não é preciso derramar sangue de ninguém, uma revolução que fazemos pela escola, educando todos os brasileiros desde a primeira idade. Isso é possível. Só depende de querermos. E, quando digo "nós", eu deveria dizer "nós, Senadores." Mas não vamos dizer isso, porque sabemos que não vamos conseguir aqui esse objetivo. Temos de dizer "nós, os brasileiros", especialmente aqueles que estão trabalhando nisso, que são nossos educadores.
Que cada educador deste País seja um educacionista, e que comecemos, a partir daí, a trabalhar o País. Que, ao nascer uma criança, o pai diga: "Esse vai ser um educador".
Acredito que isso é possível. Quem sabe não estamos começando a fazer isso nas falas, nos discursos e até nas comemorações, talvez discretas, como esta do Dia dos Professores?
Meus parabéns aos heróis que fazem a guerra que o Brasil enfrenta hoje, para derrubar o muro do atraso e o muro da desigualdade. Se se faz guerra, deve-se enfrentar as dificuldades, mas deve-se olhar onde queremos chegar: numa revolução pela educação no Brasil.
Por isso, educadores do Brasil, sejam também educacionistas. Educacionistas do Brasil, uni-vos todos pela revolução educacional que precisamos fazer. (Palmas dos ouvintes das galerias.)