quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Musicas Antigas

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

EM NOME DO PAI

EM NOME DO PAI
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
“O mundo não está ameaçado pelas más pessoas, mas sim por aquelas que permitem a maldade”
(Albert Einstein)
Lançado em 1993, o filme “Em Nome do Pai” conta a história real de Gerry Conton, um irlandês ocioso e arruaceiro que, em meio às costumeiras brincadeiras e provocações, acaba irritando o Irish Republican Army (Exército Revolucionário Irlandês). Para poupar o filho de represálias, o sossegado e aparentemente frágil Giuseppe Conton manda-o para a Inglaterra: mas Gerry dá o azar de estar no lugar errado e na hora errada quando um violento ataque terrorista do IRA destrói um bar freqüentado por soldados ingleses.
Gerry e mais três irlandeses imediatamente se transformam nos principais suspeitos e ele, assustado e intimidado por policiais revoltados, cede à pressão, confessa sua participação no atentado e, embora inocente, acaba sendo condenado à prisão perpétua juntamente com o pai que tentou ajudá-lo.
A convivência forçada com Giuseppe, numa cela minúscula onde só há espaço para livros e idéias, desperta em Gerry a admiração pelo homem forte, sábio e bom que é seu pai. Aos poucos, o garoto arrogante é contaminado pelas qualidades daquele irlandês injustamente privado da pacata vida que levava e, determinado em provar a verdade, inicia uma luta incansável para inocentar principalmente o pai, vítima da sua inconseqüência juvenil.
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Atrevo-me a narrar um mal-elaborado resumo de “Em Nome do Pai” porque este é um filme instigante, forte, persistente... assim como deve ser o bem diante da maldade que ainda encontra espaço em nosso mundo e tolerância em nossos corações.
Nas últimas décadas vencemos pacificamente uma ditadura cruel no trato com intelectuais e devastadora no meio cultural; retomamos a democracia com a cara pintada de entusiasmo e esperança; sofremos e nos solidarizamos com as grandes tragédias que se abateram sobre a humanidade; anulamos os efeitos de inescrupulosos fabricantes de produtos cancerígenos (principalmente de cigarros e de pesticidas também nocivos ao meio ambiente); iniciamos um processo de conscientização político-social e descobrimos que todo ser vivo é um milagre da Criação que precisa ser protegido (aí está a Campanha da Fraternidade de 2008 para corroborar o que escrevo). Nunca fomos tão críticos, religiosos e “politicamente corretos”!
Então, por que a maldade continua fazendo estragos na sociedade e gerando medo nos indivíduos?
Infelizmente, ainda “pagamos” para não nos incomodarmos; ignoramos as más ações que não nos atingem; defendemos única e exclusivamente o que é do nosso interesse (quando ajudamos alguém, geralmente pensamos em aplacar nossas culpas ou garantir a absolvição no julgamento de uma sociedade tão indiferente quanto o é nossa consciência).
Acredito que o número de pessoas boas é infinitamente maior do que o de pessoas más, porém, as boas costumam ser tímidas e se retrair ao menor sinal de conflito, enquanto as más são audaciosas, arrogantes e (fato curioso) possuem a convicção de estarem sempre com a razão.
Mesmo longe de poder ser considerada uma pessoa boa, tenho lutado contra o mal nas entrelinhas das minhas atitudes. Vencida minha natural timidez, cedi à uma consciência adquirida com a dor: dor da igualdade, de saber que também eu estou sujeita aos infortúnios que, em tempos de prosperidade, parecem tão distantes; dor da responsabilidade, ao entender que ignorar o mal feito à outrem torna-me egoísta e igualmente má: dor da impotência, quando a maldade se traveste de manhas e artimanhas além da minha capacidade de entender.
A consciência adquirida com a dor da minha própria fragilidade, entretanto, ainda está distante da minha capacidade de praticar o bem, mas tento resistir à maldade alheia tendo por arma, na maioria das vezes, apenas a minha indignação.
É claro que o ser humano tem limitações e que a compreensão da bondade está condicionada ao seu adiantamento moral e intelectual, no entanto, todos nascemos com o livre arbítrio para praticar o bem ou o mal: basta colocarmo-nos na situação daquele a quem dirigimos nossas ações e avaliarmos com imparcialidade se houve justiça nos gestos, nas palavras e, muitas vezes, nas idéias pré-concebidas que destroem realizações e anulam possibilidades de crescimento para quem deveria dar e receber o que cada um tem de melhor.
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No filme citado, assistimos a uma seqüência de vitórias do bem sobre o mal: o renascimento do amor entre pai e filho; a dedicação de uma advogada íntegra e decidida que aceita defender os dois; a mobilização da opinião pública internacional sobre a verdadeira situação de uma Irlanda dividida e subjugada pela Grã-Bretanha e, finalmente, a absolvição dos réus independentemente da intervenção do grupo radical irlandês.
Mas a mensagem que fica é mesmo a luta de dois irlandeses inocentes contra o julgamento da corte inglesa, arrogante e vingativa. Eles não libertaram a Irlanda do Norte das mãos dos opressores, mas devolveram o sentimento de dignidade ao povo e fortaleceram a força nacionalista que luta pela unificação do país e pela libertação do jugo britânico – a saber, existem duas facções do IRA: uma que apela à força, praticando atos de terrorismo e outra que luta pelos mesmos ideais, mas através de meios pacíficos..
Além disso, o filme nos leva à reflexão de que existem várias formas de lutar contra o mal e que nem sempre atitudes extremas mostram-se eficazes. Ao seu modo, Giuseppe também combateu o mal vivendo pacificamente e com dignidade numa Belfast invadida e ferida em sua soberania.
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Devidamente ilustrada, esta crônica se desvincula da história transposta para o cinema e se encaminha para o final despojada de quaisquer outras comparações (daqui para a frente, toda e qualquer semelhança é mera coincidência).
Todos temos condições de fazer o bem: um cumprimento; um sorriso; o interesse por algo ou por alguém que é importante para uma outra pessoa; a defesa dos direitos de quem os desconhece ou não tem como buscá-los; o gostar; o respeitar...
Somente a indiferença e a omissão estão proibidas no vocabulário de quem optou por combater a maldade: a primeira é o mal dos covardes e a segunda é a covardia dos maus. Em ambos os casos, abrem-se portas para sentimentos inferiores e se permite que o terreno se torne fértil para as sementes do mal.
Cabe a cada um de nós fazer a verdadeira justiça triunfar. Não a justiça dos gabinetes, das palavras inúteis, da hipocrisia, da decadência; mas a justiça que vence provações porque não habita no que é dito, mas, sim, naquilo que é efetivamente realizado.

O Fenômeno Amy Wine House


O FENÔMENO AMY WINEHOUSE


Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira


“Deus não escolhe os capacitados. Capacita os escolhidos.” (Albert Einstein)


Ela é problemática, irreverente, rebelde... Vive no limite e somente seu talento parece ser à prova de riscos.
Costuma cantar a dor da solidão, mas se afasta cada vez mais da família e dos milhões de fãs espalhados pelo mundo inteiro. Suas interpretações têm a força da vida, mas seu mundo é feito de álcool e drogas. Desconhece a vaidade das divas e, anoréxica, está longe do padrão de beleza explorado pela mídia, mas inspirou uma coleção do estilista Karl Lagerfeld, que a considera um ícone fashion. (A ambigüidade, aliás, parece ser a sua marca registrada).
Amy Winehouse é uma inglesa que ingressou na vida artística aos dez anos, em uma banda de rap (“Sweet'n Sour”) da qual acabou sendo expulsa por indisciplina. Aos treze ganhou sua primeira guitarra e aos dezesseis começou oficialmente sua carreira ao lado de Tyler James, dando início a uma trajetória de escândalos, vícios e sucesso.
Contratada pela Virgin, Amy lançou seu primeiro álbum (“Frank”) em 2003 e, três anos depois, aquele que lhe rendeu o prêmio de “Melhor Artista Solo Feminina no British Awards” (“Back to Black”).
Atualmente, aos vinte e quatro anos, ela é reconhecida pela versatilidade extraordinária que se traduz num estilo ao mesmo tempo personalíssimo e extremamente catalizador de tendências.
Comparada às grandes damas americanas do jazz e do blues, ela nos remete à era de ouro da Motown Records, nas décadas de 50 e 60. Também passeia com intimidade pelo soul, pelo Rn'B, pelo rock e pelo pop. Mas não restringe seu talento a um único estilo ou à uma determinada época: ela não tem definição, é a soma do que de melhor a música popular internacional produziu até o momento.
Sua voz tem a dor de Billy Holiday e a experiência de Aretha Franklin, mas igualmente tem a contemporaneidade de uma safra de jovens cantoras inglesas que estão resgatando as origens musicais do nosso tempo – também comparada à Madeleine Peyroux (que ficou conhecida no Brasil com o blues “Dance me to the end of love”, trilha sonora da novela “Belíssima”) e a Joss Stone e Lily Allen (“queridinhas” da nova geração), Amy se distancia das conterrâneas pela autenticidade de suas músicas. Ela não é mais uma invenção da mídia, uma produção fonográfica passageira: ela tem personalidade e vive cada palavra que canta... Não é o estereótipo produzido por modismos, mas a realidade atemporal e única que veio para ficar.
O álbum “Frank” mostra um pop com características marcantes do jazz: é uma explosão de talento e energia em faixas como “Stronger than me” e “Help yourself” (maravilhosa); é melódico em “You sent me flyng” e, em “I heard love is blind”, é fácil imaginá-la cantando ao lado de João Gilberto, enquanto “(There is) no greater love” parece ter sido composta por Tom Jobim – sim, Amy também é brasileira (embora estas duas faixas lembrem muito a interpretação de Etta James em “I'd rather go blind”)!
Em “Back to Black”, Amy Winehouse vivencia uma maturidade e uma sofisticação de arranjos que não lhe tiram, no entanto, paixão e dor (a interpretação visceral que nenhum estúdio é capaz de adulterar). A faixa-título é sublime e, nela, a cantora fala sobre suas desventuras amorosas e seus vícios; no entanto, talvez “He can only hold her” seja uma das melhores canções já produzidas nos últimos tempos e “Me and Mr. Jones” parece ser a reedição-solo do grupo “The Supremes”. Vale mencionar o coro que a acompanha em algumas faixas, como em “Wake up alone”, lembrando o velho e bom gospel americano que acabou banalizado na globalização de interesses.
Além desses dois álbuns, Amy gravou singles valiosos, como o romântico “Will you still love me tomorrow” (trilha sonora do filme “Bridget Jones”) e o espetacular “Valerie”, que lembra a Nova Orleans antes de virar atração turística – aliás, um dado curioso diz respeito à identificação de músicos ingleses com a música americana sulista (o rolling stone Keith Richards confessou publicamente sua paixão pela cidade e costuma incluir em suas apresentações a música “I'm ready”, um rockin roll composto em 1959 que lembra muito as origens da música negra que também influenciaram Amy Winehouse).
É comum questionarmos talentos e dons que, pretenciosamente, julgamos estar em “mãos erradas”. Desafiamos uma sabedoria suprema que capacita aqueles que entendemos menos dignos ou inadequados.
Os tablóides ingleses só conseguiram ver até o momento os escândalos de Amy e o quanto eles rendem em lucro e popularidade, deixando de registrar o fenômeno dessa cantora que interpreta músicas que, por certo, serão os clássicos do novo século.
Ao contrário de tantos “parasitas” que atribuem ao álcool e às drogas os seus atos de vandalismo e muitas vezes criminosos, Amy Winehouse transforma seus demônios em canções que se tornarão imortais. Seus tormentos são nosso deleite. Sua existência vai enriquecer o legado cultural de nossos filhos e netos. Sua razão de ser é criar polêmica no meio em que vive e afrontar o conservadorismo hipócrita do seu próprio país!
Impedida de entrar nos Estados Unidos para assistir ao vivo a festa de entrega do Grammy, no último dia 10 de fevereiro, em Los Angeles, ela faturou o prêmio em cinco das seis categorias às quais havia sido indicada. Perdeu somente na categoria de Melhor Álbum do Ano, que foi ganha pelo veterano pianista de jazz Herbie Hancock com o álbum “River: The Joni Letters” (vale lembrar que, desde 1964, nenhum álbum de jazz faturava o prêmio de melhor do ano – coincidência ou influência?).
Amy Winehouse é uma transformadora do que ainda nem conseguimos entender!
Ela é, sem sombra de dúvidas, uma escolhida!