
O FENÔMENO AMY WINEHOUSE
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
“Deus não escolhe os capacitados. Capacita os escolhidos.” (Albert Einstein)
Ela é problemática, irreverente, rebelde... Vive no limite e somente seu talento parece ser à prova de riscos.
Costuma cantar a dor da solidão, mas se afasta cada vez mais da família e dos milhões de fãs espalhados pelo mundo inteiro. Suas interpretações têm a força da vida, mas seu mundo é feito de álcool e drogas. Desconhece a vaidade das divas e, anoréxica, está longe do padrão de beleza explorado pela mídia, mas inspirou uma coleção do estilista Karl Lagerfeld, que a considera um ícone fashion. (A ambigüidade, aliás, parece ser a sua marca registrada).
Amy Winehouse é uma inglesa que ingressou na vida artística aos dez anos, em uma banda de rap (“Sweet'n Sour”) da qual acabou sendo expulsa por indisciplina. Aos treze ganhou sua primeira guitarra e aos dezesseis começou oficialmente sua carreira ao lado de Tyler James, dando início a uma trajetória de escândalos, vícios e sucesso.
Contratada pela Virgin, Amy lançou seu primeiro álbum (“Frank”) em 2003 e, três anos depois, aquele que lhe rendeu o prêmio de “Melhor Artista Solo Feminina no British Awards” (“Back to Black”).
Atualmente, aos vinte e quatro anos, ela é reconhecida pela versatilidade extraordinária que se traduz num estilo ao mesmo tempo personalíssimo e extremamente catalizador de tendências.
Comparada às grandes damas americanas do jazz e do blues, ela nos remete à era de ouro da Motown Records, nas décadas de 50 e 60. Também passeia com intimidade pelo soul, pelo Rn'B, pelo rock e pelo pop. Mas não restringe seu talento a um único estilo ou à uma determinada época: ela não tem definição, é a soma do que de melhor a música popular internacional produziu até o momento.
Sua voz tem a dor de Billy Holiday e a experiência de Aretha Franklin, mas igualmente tem a contemporaneidade de uma safra de jovens cantoras inglesas que estão resgatando as origens musicais do nosso tempo – também comparada à Madeleine Peyroux (que ficou conhecida no Brasil com o blues “Dance me to the end of love”, trilha sonora da novela “Belíssima”) e a Joss Stone e Lily Allen (“queridinhas” da nova geração), Amy se distancia das conterrâneas pela autenticidade de suas músicas. Ela não é mais uma invenção da mídia, uma produção fonográfica passageira: ela tem personalidade e vive cada palavra que canta... Não é o estereótipo produzido por modismos, mas a realidade atemporal e única que veio para ficar.
O álbum “Frank” mostra um pop com características marcantes do jazz: é uma explosão de talento e energia em faixas como “Stronger than me” e “Help yourself” (maravilhosa); é melódico em “You sent me flyng” e, em “I heard love is blind”, é fácil imaginá-la cantando ao lado de João Gilberto, enquanto “(There is) no greater love” parece ter sido composta por Tom Jobim – sim, Amy também é brasileira (embora estas duas faixas lembrem muito a interpretação de Etta James em “I'd rather go blind”)!
Em “Back to Black”, Amy Winehouse vivencia uma maturidade e uma sofisticação de arranjos que não lhe tiram, no entanto, paixão e dor (a interpretação visceral que nenhum estúdio é capaz de adulterar). A faixa-título é sublime e, nela, a cantora fala sobre suas desventuras amorosas e seus vícios; no entanto, talvez “He can only hold her” seja uma das melhores canções já produzidas nos últimos tempos e “Me and Mr. Jones” parece ser a reedição-solo do grupo “The Supremes”. Vale mencionar o coro que a acompanha em algumas faixas, como em “Wake up alone”, lembrando o velho e bom gospel americano que acabou banalizado na globalização de interesses.
Além desses dois álbuns, Amy gravou singles valiosos, como o romântico “Will you still love me tomorrow” (trilha sonora do filme “Bridget Jones”) e o espetacular “Valerie”, que lembra a Nova Orleans antes de virar atração turística – aliás, um dado curioso diz respeito à identificação de músicos ingleses com a música americana sulista (o rolling stone Keith Richards confessou publicamente sua paixão pela cidade e costuma incluir em suas apresentações a música “I'm ready”, um rockin roll composto em 1959 que lembra muito as origens da música negra que também influenciaram Amy Winehouse).
É comum questionarmos talentos e dons que, pretenciosamente, julgamos estar em “mãos erradas”. Desafiamos uma sabedoria suprema que capacita aqueles que entendemos menos dignos ou inadequados.
Os tablóides ingleses só conseguiram ver até o momento os escândalos de Amy e o quanto eles rendem em lucro e popularidade, deixando de registrar o fenômeno dessa cantora que interpreta músicas que, por certo, serão os clássicos do novo século.
Ao contrário de tantos “parasitas” que atribuem ao álcool e às drogas os seus atos de vandalismo e muitas vezes criminosos, Amy Winehouse transforma seus demônios em canções que se tornarão imortais. Seus tormentos são nosso deleite. Sua existência vai enriquecer o legado cultural de nossos filhos e netos. Sua razão de ser é criar polêmica no meio em que vive e afrontar o conservadorismo hipócrita do seu próprio país!
Impedida de entrar nos Estados Unidos para assistir ao vivo a festa de entrega do Grammy, no último dia 10 de fevereiro, em Los Angeles, ela faturou o prêmio em cinco das seis categorias às quais havia sido indicada. Perdeu somente na categoria de Melhor Álbum do Ano, que foi ganha pelo veterano pianista de jazz Herbie Hancock com o álbum “River: The Joni Letters” (vale lembrar que, desde 1964, nenhum álbum de jazz faturava o prêmio de melhor do ano – coincidência ou influência?).
Amy Winehouse é uma transformadora do que ainda nem conseguimos entender!
Ela é, sem sombra de dúvidas, uma escolhida!



Um comentário:
Belo post.
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