terça-feira, 9 de setembro de 2008

A MENINA E O TREM


A MENINA E O TREM

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

"A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos." [ Marcel Proust ]

Caminho em círculos

Como cachorro adestrado

Tentando pegar o próprio rabo

Meu mundo é pequeno

Mas minha imaginação rompe barreiras

Revivo a cada dia a expectativa

Como única emoção de um amanhã que desconheço

Vejo ruas, viadutos, trens

Uma escada interminável e uma viagem

Meu destino é a estação seguinte

Como minha vida, caminho tão curto e sem emoções

Nos degraus quebrados antecipo a chegada

E na composição lenta rezo pelo atraso

Tento alcançar os milharais, os lagos

Estico os braços que batem contra a vidraça

Quero uma lembrança, uma extinta fotografia

Na retina perversa do tempo que se esvai

Nas mãos só ficam gotas do úmido sereno

Assim como nos olhos só restam lembranças desbotadas

Mas em minh’alma fica o resfolegar da máquina

Em compassados estertores dominicais

É um vai-e-vem pomposo e colorido

Nas manhãs de um futuro que nem havia ainda chegado

Descem todos, final do caminho para uns

Sobem outros, início da viagem para muitos

Paro, quedo-me, esperneio, choro, sou por fim conduzida

À plataforma que se esvazia

Sou fantasma na solidão de anos

Tentando viajar mais uma vez

Sou passado, sou saudade, sou esperança

E, em dias frios e ensolarados, sou esperança...

(Às vezes, sou criança!)