terça-feira, 18 de março de 2008

OFICINA LITERÁRIA HILDA SIMÕES LOPES COSTA


EXERCÍCIO 03/2008
CONTO PROGRAMADO

1) O telegrafista saiu às 5 horas. Estava furioso, pois considerava sua demissão iminente. No fundo, no fundo sabia que sua profissão estava em extinção, mas, infelizmente, não sabia fazer outra coisa e muito pouco estudo tinha.

2) Vestia um casaco grosso, de lã, que só lhe aumentava o peso sobre os ombros, e carregava uma pasta, a fim de consultar um advogado sobre os seus direitos trabalhistas.

3 Sua preocupação era com a família. Como sustentá-la sem o emprego? Além disso, havia sua auto-estima, sua dedicação de quase 30 anos; merecia mais consideração e para tanto iria até às últimas conseqüências...

4) O clima era tenso quando entrou no escritório de advocacia. Já na sala de espera a secretária avisou que demoraria a ser atendido, o que considerava um sinal de mau agouro.

5) Encontrou-se com o Dr. Felipe após quase duas longas horas de espera e ficou surpreso ao ver sair do escritório um colega seu dos Correios, que vinha de cabeça baixa e cuja idéia era a de que não havia recebido boas notícias. Juntamente com o colega, saiu um desconhecido, de terno e gravata, aparentando ser também advogado.

6) Depois de cumprimentar o desconhecido e ser ignorado pelo companheiro de trabalho, foi convidado a entrar no sóbrio escritório. Sentado na confortável poltrona, expôs seus temores, afirmando que a demissão era coisa praticamente certa e cuja idéia era antecipar-se para evitar o pior ou, pelo menos, garantir seus direitos.

7) Depois de discutirem o caso, decidiram que a causa era desnecessária: o Dr. Felipe lhe tranqüilizou informando que o outro telegrafista, que acabara de sair do escritório, cabisbaixo, tinha acabado de ser demitido para assegurar que ele, empregado mais antigo e extremamente respeitado na instituição, permanecesse no emprego.

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
Em 19/03/2008

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EXERCÍCIO 02/2008

O INÍCIO DA VIAGEM AO FUNDO DO POÇO

Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira

Bato a porta com força, sabendo que não voltarei. Na boca, o gosto do pão com manteiga e do beijo sem gosto... Chega de beijos e de pães e de cafés e de acenos... Pelo caminho, a paisagem congelada na memória parece gritar: “- Jonas, Jonas, acorda: isto é só um sonho!” Presto atenção nas crianças com uniformes azuis; devem ir para a escola, as crianças... Sua algazarra se confunde com a buzina dos carros e a minha cabeça dói como a fome. Começo a contar os carros, separando-os por cores e marcas: adoro carros azuis, mas eu os vejo brancos, cinzas, alguns vermelhos – são brinquedos de infância, são brinquedos de sonho, são brinquedos mortais... coloridos, velozes, sem destino! Finalmente, chego à rua de sempre: o boteco, o andaime, a bronca de quem se diz chefe (“-Eu, bebendo a essa hora da manhã?”), o capacete, a cidade lá embaixo como se fosse minha... A cidade dividida em linhas retas que dão em nada! Mais acima, enxergo o rio, a ponte, o horizonte azul e verde feito de céu e mato. Quisera voar como um pássaro, mas esses gritos me chamam, e mandam, ordenam, cobrem minha visão de concreto e lágrimas. As crianças – volto a pensar nelas – onde andarão? Espero que sejam diferentes dos pais, de todos os pais do mundo, de toda a mesmice que transforma criação em vagabundagem. Quisera voltar à infância, mas com a coragem e a determinação que tenho agora! Ouço gritos de indignação: será o meu chefe ou o meu estômago? O feijão e arroz, com um ovo frito, mata a minha fome mas não sacia a minha sede de liberdade... Asas, onde eu as encontro? Alguém sabe? Por favor, ajudem-me... Escuto alguém chamando uma ambulância e fujo (disfarço). Não suporto mais tragédias, não quero mais sentir a dor dos ferimentos alheios, desisto do dia seguinte para poder viver um dia, ao menos – nem isso, uma tarde... Uma tarde que vira noite, uma noite que vira manhã, uma manhã que vira dia, um dia que vira presente... E o futuro, onde está? Existirá futuro? Presto atenção no nordestino de sotaque estranho: odeio sua humildade, sua carne seca com farinha, sua cabeça chata, seu sorriso sem dentes... Eu quero ser alguém dentro de mim, dentro do meu próprio espaço que acabou virando um país estranho e hostil. Viro a cara para o sorriso desdentado e enfrento a malandragem do negro que tenta trocar o salsichão da semana passada pelo meu ovo frito. Deixo de ser bobo: furo depressa a gema e ela se esparrama sobre o arroz como tinta amarela numa tela em branco; pinto meu quadro, forro meu estômago, provoco o negro despeitado, desprezo o nordestino solitário... Sou mau dentro de uma bondade incompreensível: retribuo o que a vida me deu, só isso... O chefe berra que o horário do almoço acabou; completo a rotina arrastando minha preguiça para a liberdade... Dessa vez, pelo menos dessa vez, controlo minha vontade e meus atos. De nada adiantam os gritos: “-Jonas, Jonas, não seja burro... Volta!” Eu odeio o meu nome, eu odeio baleias, eu odeio o meu passado... O andaime balança meu corpo contra o céu e a sensação de liberdade faz-se inteira. É verdade que ainda persiste o gosto do pão com manteiga e do beijo sem gosto. Mas há de haver outros pães e outros beijos... “-Jonas, Jonas o que está fazendo? Por favor, volta!”. Meu sorriso é de um louco, minha lucidez se perdeu na cidade grande. Caminho liberto de mim, do que me obrigaram a ser, do que não sou... “-Jonas, Jonas, ainda podes voltar! Esquece essa idéia maluca!”. Maluca é a mentira, a mentira, a mentira... Violentei-me o quanto deu e não devo mais nada a ninguém! Querem minha alma? Que fiquem com ela, tenho ainda um corpo e uma mente vazia – de agora em diante, nela só entrará o que me fizer feliz. Para começar, a garrafa de cachaça e as ruas desertas. Estas ruas que desconheço. Essa embriaguez à qual acabo de me apresentar!
Acordo nos degraus de uma igreja. É até irônico: nunca fui católico, nem de outra religião qualquer... Acredito somente no presente e na minha capacidade de ainda encontrar a paz. A garrafa está vazia e uma boa alma cobriu meu corpo com um ralo cobertor... Não é suficiente para aplacar o frio, mas me faz acreditar na bondade de alguém. Minha cabeça está vazia, como continuar vivendo sem lembranças? Então vejo as crianças, nos seus uniformes azuis, e lhes aceno timidamente...
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Exercício 01/2008

REFORÇO DE CONFLITO (05/03/2008)

(Texto com três parágrafos)

O personagem sabe que passará mais uma noite sem dormir. (4a)

Deitado sobre caixas de papelão e jornais, Jonas tenta acomodar-se apesar do frio. Impossível! O gelo penetra na pele e na alma, congelando seus pensamentos e impedindo qualquer reação. (1)

Senta-se e pensa no passado que somente ele conhece. É um mendigo, mas sua dignidade aflora na maneira como preserva suas lembranças e seus desejos. (2)

De repente, o vento gélido da noite coloca em suas mãos uma folha de jornal. Abre-a com a intenção de reforçar sua proteção contra o frio, mas algo lhe chama a atenção: uma foto em preto e branco que mostra o passado que tenta esquecer. (3)

Dessa vez, a vigília não será por culpa do frio! (4b)
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
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