
ESTAÇÃO: OUTONO
Há um “quê” de malícia nessa tarde inquietante e moleca... Nem bem verão, tampouco inverno – mais para um outono sem paradigmas, irracional. Nem uma coisa, nem outra: apenas o calor do dia, que se compensa com o aconchego dos abraços à noite (na falta de abraços, que não falte o cobertor com cheiro de guardado, ansioso para ser usado).
Há um jeito de travessura nesse pulo invisível que o tempo deu e ninguém notou: ontem era verão, mergulhava em um mar de espuma, bebia chope madrugada adentro. Já hoje fez-se um tempo esquisito, que mistura sol e frio, caminhadas e preguiça; ventos, folhas, paisagens pintadas de amarelos e marrons, lembranças, calçadas que se esvaziam ao entardecer...
Afinal, será que esse lapso de tempo aconteceu somente comigo ou faz parte de uma natureza que eu jamais percebi?
Levanto a gola do casaco como quem faz continência para a majestade do cenário, mas não me convenço que existam ciclos na maturidade. Assisto as estações passarem como meros calendários, cujas figuras são trocadas e admiradas por um certo tempo. Admiro alguns vultos que trocam as vestes e não permanecem iguais, como se suas identidades estivessem na frágil concepção da moda: algodão, linho, seda, sarja, lã, cashmere... Transformo-me em estilista, sem estilo; apenas observadora de tendências fashions e previsões climáticas.
Sou louca, pirada, mordaz, incapaz, audaz... Adoro rimas e o tempo... Esse tempo que muda de fora para dentro, desculpando-nos pelo envelhecimento das folhas que caem e nos transformando em mártires da nossa própria decadência.
Observo a jovem com uma minissaia primaveril; vejo o executivo no seu eterno inverno engravatado; divirto-me com as crianças à beira mar e sobrevivo a esse outono eterno, de lembranças e galhos secos...
No meu delírio, tento refazer meus passos, voltar à juventude: observo o mar, procuro flores para colher, quero voltar à serra para tentar ver neve... Mas não há como voltar (como os jovens costumam dizer: “a fila andou”). No meu caso, o tempo disparou num galope desenfreado e sem rumo.
Revejo a igreja coberta de hera, que se transforma a cada estação. Ela é o meu relógio biológico e atemporal... Quando eu me for, quando eu realmente partir, a igreja vai permanecer naquela mesma esquina, como calendário vivo que não se cansa de alertar para a finitude da vida e para a imortalidade da fé.
Meu ânimo muda quando chega a noite e o garçom coloca à minha frente uma tulipa de chope. Festejo o final do verão como se muitos outros tivesse – ou, talvez, esteja festejando justamente a ignorância de não saber quantas estações ainda me restam.
Como um trem, observo as plataformas sem sair dos trilhos. Apenas admiro as mudanças e me preparo para o fim da linha como máquina cansada e sem opções. Pronta para ser substituída.
Sou um trem nesse vai-e-vem, entre o mal e o bem, consciente do que está aqui e do que imagino além... Poeta de mal sucedidas rimas e linhas. Estatística sem nome. Observadora do que ninguém mais vê (e, se vê, não liga).
Abandono o papel e a caneta para continuar caminhando nessa paisagem de outono: rumo à uma estrada real, à uma vida imortal, a um tempo ideal...



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