GUARDANAPOS DE CROCHÊ
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
O leitor com mais idade deve lembrar daqueles guardanapos de crochê, delicadamente trabalhados, que se usava colocar no encosto de sofás, poltronas e cadeiras. Pois bem, essa história é sobre eles e sobre os motivos de alguém que os tecia pacientemente, ponto a ponto, laçada após laçada...).
Laura era filha única e, como o pai trabalhava fora (inclusive aos sábados), costumava acompanhar a mãe sempre que a mesma precisava sair: no armazém, na quitanda, no açougue, visitar uma vizinha adoentada... Na época, lá pela metade da década de 60, Laura tinha oito anos; era esperta, curiosa e sentia prazer em sair com a mãe (principalmente porque, quase sempre, voltavam para casa com uma prenda – coisa simples, é bem verdade, mas suficiente para enfeitar sua vidinha de subúrbio).
(Deve atentar o leitor para o fato de que, na época, ainda não existiam grandes supermercados e os armazéns costumavam vender de tudo – inclusive mimos que encantavam as meninas, como pulseiras de plástico, presilhas para o cabelo, balas que vinham com um anel de pedra colorida, álbuns de figurinhas, e muitas outras coisas).
Dessas saídas, Laura só não gostava de ir todos os sábados, religiosamente, visitar uma amiga da mãe que se chamava Maria “de tal”. Almoçavam, a mãe arrumava a cozinha, trocavam de roupa e lá se iam para a casa de Dona Maria, uma mulata cinqüentona robusta, sorridente, com manchas brancas no rosto e nas mãos e casa bem ao estilo de solteirona da época: impecavelmente limpa e arrumada.
Laura sentia nojo do beijo estalado em sua bochecha, mas aceitava com prazer o que lhe era oferecido: enquanto a mãe e sua amiga conversavam e tomavam chá, não faltava à sua frente um pratinho com rosquinhas de coco (uma especialidade da dona da casa) e um copo de suco ou guaraná.
Terminado o lanche, Laura ficava sem ter o que fazer, a não ser examinar a sala que conhecia de “cor e salteado”: os retratos em preto e branco distribuídos pelas paredes e em porta-retratos sobre um balcão; a mesinha de pés torneados, forrada com plástico transparente para não ser manchada ou arranhada; o tapete florido; o sofá e a poltrona com estofamento de veludo vermelho e braços de madeira; a cadeira de balanço com assento e encosto em palhinha; a família de cisnes de porcelana alegrando um móvel baixo, semelhante a um armário de madeira escura, com duas portas fechadas à chave que atiçavam sua curiosidade... Mas o que a encantava, mesmo, eram os guardanapos de crochê que guarneciam os encostos do sofá, da poltrona e da cadeira de balanço: eram delicadas peças que, de vez em quando, mudavam de cor e de forma. E ela adorava acariciá-los, sentir sua textura, imaginar o trabalho que deveriam ter dado para serem confeccionados.
(Agora o leitor já sabe que Dona Maria, a “solteirona” com vitiligo, ocupava seu tempo limpando e arrumando a casa, mas, principalmente, usando suas mãos ágeis para tecer guardanapos de crochê que coloriam sua vida e atraiam a atenção das raras pessoas que a visitavam).
Laura cresceu, a família mudou de bairro, as visitas à Dona Maria foram ficando cada vez mais raras até que um dia deixou de acompanhar a mãe. Já era uma adolescente que podia muito bem ficar sozinha em casa e, além disso, o final do curso ginasial era “puxado”, exigindo que usasse os fins de semana para estudar e realizar trabalhos.
Só voltou à casa de Dona Maria no dia em que ela morreu. Como era costume à época, o velório foi realizado em casa, na sala que tão bem conhecia.
Já na entrada do jardim, ficou chocada com as pessoas que pisoteavam as flores tão carinhosamente plantadas e cuidadas pela amiga da mãe. Mas foi na sala que toda a sua surpresa e dor vieram à tona: copos molhados sobre a mesa e o balcão; porta-retratos amontoados em um canto, para dar lugar a um prato de salgadinhos; refrigerante derramado no tapete e – o pior – os guardanapos de crochê usados para limpar mãos e bocas, secar o nariz do bebê resfriado, atirados ao chão, pisoteados, ignorados...
Voltou sozinha para casa, com os olhos marejados, e, quando a mãe chegou, teve que agüentar uma repreensão por não se ter despedido da velha senhora como convinha, pois nem à beira do caixão havia chegado para ao menos fazer uma prece.
Porém, dentro de si Laura guardou a convicção de que havia sido uma das únicas pessoas que realmente respeitou Dona Maria Ondina da Cunha na vida e na morte; e também a única que chorou por sua casa, invadida e vandalizada por um “bando” de parentes interesseiros e estranhos curiosos.
Por fim, havia entendido a vida da estranha senhora e o valor dos seus guardanapos de crochê!
(Vale acrescentar, caro leitor, que, a partir desse dia, Laura sentiu nascer dentro de si uma grande admiração pela mãe. Vá a gente entender essas relações entre pais e filhos!).
quarta-feira, 9 de abril de 2008
GUARDANAPOS DE CROCHÊ
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