
- ME DÁ UM DINHEIRO AÍ?
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
Um dia apareceu na cidade assim, sem mais nem menos, saído do nada...
Instalou-se, durante o dia, na frente de uma agência bancária onde implorava atenção e pedia um “trocado”... Retribuía as escassas moedas com um comovente sorriso desdentado e alguns passos de dança! Pobre homem, pobre louco!
O gerente se desesperou, procurou a polícia, falou com a autoridade máxima:
-Ele importuna os clientes e, cá entre nós, acho que faz parte de uma quadrilha que pretende assaltar o banco!
-Calma, Borges, calma... – O delegado, velho camarada do gerente, conhecia a personalidade alarmista do amigo e o zelo com que cuidava do banco, sacrificando as próprias horas de lazer para garantir a segurança do patrimônio que lhe fora confiado.
-Mas, Oliveira, ele é inconveniente, aproxima-se das pessoas apesar de cheirar mal e é muito, muito estranho... Volto a dizer: tenho “pra” mim que ele é espião de algum bando, está ali para passar informações...
-Escuta, Borges, vamos fazer o seguinte: eu vou investigar o sujeito... quem é, de onde veio, se tem passagem na polícia... Está bem?
-Tudo bem, confio em você!
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No dia seguinte, alguns policiais levaram o mendigo à delegacia. Trêmulo de medo, o pobre entregou um saco de pano, amarrado com um cordão... Lá dentro, algumas fotos, uma certidão de nascimento e um recorte de jornal...
-Então, você se chama Jonas da Silva e nasceu nessa cidade em 25 de janeiro de 1958? – Indagou o delegado examinando-o com curiosidade.
-Sim, senhor!
O delegado fez algumas anotações, guardou os papéis no pano sujo e o devolveu ao homem, ensaiando um meio sorriso amistoso:
-O senhor está liberado, pode ir embora!
-Muito obrigado, doutor, muito obrigado!
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E o tempo passou! Sem nenhum antecedente que o incriminasse, Jonas permaneceu na entrada da agência bancária, sorrindo para quem lhe dava uma moeda e fazendo caretas para os apressados e indiferentes... As pessoas se acostumaram com ele: era tolerado por algumas e tratado amistosamente por outras. Somente seu passado era uma incógnita, mas, para a maioria, isto não fazia a menor diferença.
-Ei, amigo... Me dá um dinheiro aí? – O empresário apressado rosnou um impropério, mas o estudante risonho tirou de sua magra mesada algumas moedas.
-Obrigado, jovem, muito obrigado! Qual é o seu nome?
-Rodrigo... E o seu?
-Jonas, a seu dispor! – Respondeu o mendigo fazendo uma mesura exagerada.
-Muito prazer, Jonas, de onde você é?
O silêncio indicou que a conversa havia terminado. Rodrigo seguiu seu caminho e Jonas voltou a sorrir:
-Tia, tem um trocado “pro” almoço?
Da janela do andar superior, o gerente acompanhava a cena. Nas últimas semanas havia dedicado alguns minutos do seu tempo para observar Jonas. Percebeu que ele costumava ser cordial com as pessoas, não demonstrando impaciência ou desagrado quando elas o ignoravam ou insultavam. Além disso, jamais sentiu cheiro de bebida ou cigarro quando passava ao seu lado... Ele era um mistério, embora já não o preocupasse tanto!
Os meses seguintes transcorreram sem maiores novidades, a não ser visitas mais freqüentes do Delegado Oliveira ao banco. No início, Borges estranhou ver o amigo pagando contas, fazendo saques e tirando extratos – coisas que ele costumava fazer on line ou eram providenciadas por outra pessoa da sua confiança -, mas, com tanto trabalho e preocupações, deixou de pensar no assunto.
Em dezembro, Borges se deixou contaminar pelo espírito natalino e admitiu a si mesmo ter deixado crescer, em seu coração, uma certa simpatia por Jonas. Certa noite seguiu o mendigo de carro e ficou penalizado com o local onde ele dormia: um beco entre dois prédios, sobre papelões e trapos que estendia no meio dos latões de lixo... (“-Quando tiver tempo, pensarei em algo para ajudá-lo!”, prometeu não sabia exatamente a quem.). A verdade é que não conseguia mais imaginar a entrada do banco sem a figura folclórica de Jonas, dançando e sorrindo aquele sorriso inocente, conformado, inofensivo...
A poucos dias do Natal, Jonas desapareceu! E Borges estava às voltas com o balanço anual do banco que a Contabilidade não conseguia fechar, a escolha dos presentes, as compras para a ceia, os parentes que chegavam à sua casa... Só lembrou do mendigo no almoço natalino, admirando a mesa farta... Decidiu que no dia seguinte levaria alguns sanduíches de peru para Jonas, talvez um refrigerante... por que não um vinho? Não, não era bom iniciá-lo no álcool, ele já tinha muitos problemas, o refrigerante estava bom!
No dia seguinte, Borges jogou fora as sobras de Natal quando se convenceu de que o mendigo não apareceria... Custou a reconhecer que, mais do que frustrado, estava preocupado.
A semana foi agitada e, no último dia do ano, aguardou em vão ouvir a voz desafinada de Jonas emendando pedaços de músicas, pedindo alegremente: “-Me dá um dinheiro aí?”. O expediente no banco terminou ao meio dia e Borges se dirigiu rapidamente para casa, pois após o feriadão do final de ano tiraria dez dias de férias, na praia, gozando um merecido descanso!
Voltou na metade de janeiro e custou a entrar no ritmo novamente. Só lembrou de Jonas quando um funcionário do banco falou em voz alta: “-Olha, o louquinho voltou...”
Lá embaixo, o mendigo pedia esmolas sentado em uma pedra, com o braço estendido e a mão em concha. Não falava, não cantava, não sorria...
Borges desceu e tentou puxar conversa, saber onde andava... Mas seus olhos estavam vazios, o hálito cheirava a álcool e parecia não ouvir... Estava longe, muito longe...
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Somente depois do feriado de carnaval é que a rotina foi aos poucos se instalando no banco. Mas o gerente nunca mais foi o mesmo!
Borges passou a lembrar, com freqüência, do entusiasmo de um ex-colega tomado de amores pela metrópole para onde fora transferido, tentando convencer a todos que uma cidade grande pode ser humana e calorosa: “-Basta dar um passo e você está em outro bairro... Às vezes, basta atravessar uma rua ou avenida! Está tudo interligado, só muda o nome...”
“-Basta dar um passo...”, refletiu Borges. Foi assim que passou a enxergar a sanidade de Jonas: alguma coisa no passado estava constantemente chamando-o, afastando-o da realidade, obrigando-o a dar um passo para trás, em direção às lembranças... Ele havia passado muito tempo no limiar da razão, sem ter certeza da direção a seguir. Parece que finalmente havia sucumbido a algo mais forte do que ele!
No final do seu turno, o gerente passou pelo mendigo e pensou em falar com ele, mas desistiu. Gostaria de conhecer seu passado, saber a origem da dor que carregava, no entanto, havia deixado passar a oportunidade.
Rumou para o estacionamento perguntando-se qual seria a direção certa para dar o próximo passo no dia seguinte!



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