EM NOME DO PAI
Vera Lúcia Pinheiro de Oliveira
“O mundo não está ameaçado pelas más pessoas, mas sim por aquelas que permitem a maldade”
(Albert Einstein)
Lançado em 1993, o filme “Em Nome do Pai” conta a história real de Gerry Conton, um irlandês ocioso e arruaceiro que, em meio às costumeiras brincadeiras e provocações, acaba irritando o Irish Republican Army (Exército Revolucionário Irlandês). Para poupar o filho de represálias, o sossegado e aparentemente frágil Giuseppe Conton manda-o para a Inglaterra: mas Gerry dá o azar de estar no lugar errado e na hora errada quando um violento ataque terrorista do IRA destrói um bar freqüentado por soldados ingleses.
Gerry e mais três irlandeses imediatamente se transformam nos principais suspeitos e ele, assustado e intimidado por policiais revoltados, cede à pressão, confessa sua participação no atentado e, embora inocente, acaba sendo condenado à prisão perpétua juntamente com o pai que tentou ajudá-lo.
A convivência forçada com Giuseppe, numa cela minúscula onde só há espaço para livros e idéias, desperta em Gerry a admiração pelo homem forte, sábio e bom que é seu pai. Aos poucos, o garoto arrogante é contaminado pelas qualidades daquele irlandês injustamente privado da pacata vida que levava e, determinado em provar a verdade, inicia uma luta incansável para inocentar principalmente o pai, vítima da sua inconseqüência juvenil.
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Atrevo-me a narrar um mal-elaborado resumo de “Em Nome do Pai” porque este é um filme instigante, forte, persistente... assim como deve ser o bem diante da maldade que ainda encontra espaço em nosso mundo e tolerância em nossos corações.
Nas últimas décadas vencemos pacificamente uma ditadura cruel no trato com intelectuais e devastadora no meio cultural; retomamos a democracia com a cara pintada de entusiasmo e esperança; sofremos e nos solidarizamos com as grandes tragédias que se abateram sobre a humanidade; anulamos os efeitos de inescrupulosos fabricantes de produtos cancerígenos (principalmente de cigarros e de pesticidas também nocivos ao meio ambiente); iniciamos um processo de conscientização político-social e descobrimos que todo ser vivo é um milagre da Criação que precisa ser protegido (aí está a Campanha da Fraternidade de 2008 para corroborar o que escrevo). Nunca fomos tão críticos, religiosos e “politicamente corretos”!
Então, por que a maldade continua fazendo estragos na sociedade e gerando medo nos indivíduos?
Infelizmente, ainda “pagamos” para não nos incomodarmos; ignoramos as más ações que não nos atingem; defendemos única e exclusivamente o que é do nosso interesse (quando ajudamos alguém, geralmente pensamos em aplacar nossas culpas ou garantir a absolvição no julgamento de uma sociedade tão indiferente quanto o é nossa consciência).
Acredito que o número de pessoas boas é infinitamente maior do que o de pessoas más, porém, as boas costumam ser tímidas e se retrair ao menor sinal de conflito, enquanto as más são audaciosas, arrogantes e (fato curioso) possuem a convicção de estarem sempre com a razão.
Mesmo longe de poder ser considerada uma pessoa boa, tenho lutado contra o mal nas entrelinhas das minhas atitudes. Vencida minha natural timidez, cedi à uma consciência adquirida com a dor: dor da igualdade, de saber que também eu estou sujeita aos infortúnios que, em tempos de prosperidade, parecem tão distantes; dor da responsabilidade, ao entender que ignorar o mal feito à outrem torna-me egoísta e igualmente má: dor da impotência, quando a maldade se traveste de manhas e artimanhas além da minha capacidade de entender.
A consciência adquirida com a dor da minha própria fragilidade, entretanto, ainda está distante da minha capacidade de praticar o bem, mas tento resistir à maldade alheia tendo por arma, na maioria das vezes, apenas a minha indignação.
É claro que o ser humano tem limitações e que a compreensão da bondade está condicionada ao seu adiantamento moral e intelectual, no entanto, todos nascemos com o livre arbítrio para praticar o bem ou o mal: basta colocarmo-nos na situação daquele a quem dirigimos nossas ações e avaliarmos com imparcialidade se houve justiça nos gestos, nas palavras e, muitas vezes, nas idéias pré-concebidas que destroem realizações e anulam possibilidades de crescimento para quem deveria dar e receber o que cada um tem de melhor.
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No filme citado, assistimos a uma seqüência de vitórias do bem sobre o mal: o renascimento do amor entre pai e filho; a dedicação de uma advogada íntegra e decidida que aceita defender os dois; a mobilização da opinião pública internacional sobre a verdadeira situação de uma Irlanda dividida e subjugada pela Grã-Bretanha e, finalmente, a absolvição dos réus independentemente da intervenção do grupo radical irlandês.
Mas a mensagem que fica é mesmo a luta de dois irlandeses inocentes contra o julgamento da corte inglesa, arrogante e vingativa. Eles não libertaram a Irlanda do Norte das mãos dos opressores, mas devolveram o sentimento de dignidade ao povo e fortaleceram a força nacionalista que luta pela unificação do país e pela libertação do jugo britânico – a saber, existem duas facções do IRA: uma que apela à força, praticando atos de terrorismo e outra que luta pelos mesmos ideais, mas através de meios pacíficos..
Além disso, o filme nos leva à reflexão de que existem várias formas de lutar contra o mal e que nem sempre atitudes extremas mostram-se eficazes. Ao seu modo, Giuseppe também combateu o mal vivendo pacificamente e com dignidade numa Belfast invadida e ferida em sua soberania.
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Devidamente ilustrada, esta crônica se desvincula da história transposta para o cinema e se encaminha para o final despojada de quaisquer outras comparações (daqui para a frente, toda e qualquer semelhança é mera coincidência).
Todos temos condições de fazer o bem: um cumprimento; um sorriso; o interesse por algo ou por alguém que é importante para uma outra pessoa; a defesa dos direitos de quem os desconhece ou não tem como buscá-los; o gostar; o respeitar...
Somente a indiferença e a omissão estão proibidas no vocabulário de quem optou por combater a maldade: a primeira é o mal dos covardes e a segunda é a covardia dos maus. Em ambos os casos, abrem-se portas para sentimentos inferiores e se permite que o terreno se torne fértil para as sementes do mal.
Cabe a cada um de nós fazer a verdadeira justiça triunfar. Não a justiça dos gabinetes, das palavras inúteis, da hipocrisia, da decadência; mas a justiça que vence provações porque não habita no que é dito, mas, sim, naquilo que é efetivamente realizado.



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